DILIP HIRO: MUDANÇA DE REGIME EM TEERÃ


Publicado no blog do Azenha

Atualizado e Publicado em 15 de janeiro de 2010 às 14:06

Mudança de regime em Teerã? Não aposte nisso.

14/1/2010, Dilip HiroAsia Times Online

Dilip Hiro é dramaturgo, cientista social e jornalista, autor de vários livros sobre o Oriente Médio, dentre os quais The Iranian Labyrinth. Seu livro mais recente acaba de ser lançado: After Empire: The Birth of a Multipolar World (Nation Books). Mais, sobre ele, em http://en.wikipedia.org/wiki/Dilip_Hiro.

As imagens dramáticas de manifestantes no Irã, que encararam – e às vezes revidaram – os ataques brutais das forças de segurança do governo presidido por Ahmadinejad levaram muitos ocidentais a presumir que Teerã esteja à beira de uma troca de regime; a história repetir-se-ia, com pequena diferença. Afinal de contas, o Irã se caracteriza por ser o único Estado do Oriente Médio que passou por mudança revolucionária – há 31 anos –, e revolução nascida de protestos de rua.

Analisada objetivamente, contudo, essa é pressuposição simplificadora. Passa sem analisar por diferenças essenciais entre os eventos de hoje e os eventos de 1978-1979, quando o Xá foi derrubado e fundou-se uma República Islâmica sob o comando do Aiatolá Ruhollah Khomeini. A história mostra que um movimento revolucionário só triunfa quando emergem dois fatores: conquista o apoio de uma coalizão de diferentes classes sociais e consegue desmontar a máquina administrativa e o aparelho repressivo do Estado governante.

Dois movimentos, dois momentos

É mais que hora de fazer-se uma revisão desses 31 anos da revolução iraniana. Em fevereiro de 1979, a monarquia autocrática do Xá entrou em colapso, quando o campo econômico foi paralisado por greves, não só dos mercadores do bazaar e religiosos praticantes, mas também dos funcionários públicos, dos empregados da indústria e – essencialmente importantes – dos sindicatos da indústria do petróleo, de esquerda. Ao mesmo tempo, os pilares do Estado moderno – as forças armadas, as forças especiais, a polícia, as agências de inteligência e a mídia controladas pelo Xá – ruíram.

As demonstrações de rua lançadas em outubro de 1977 por intelectuais e profissionais liberais iranianos para protestar contra violações dos direitos humanos pela SAVAK, a brutal polícia secreta do Xá, não tinham foco, nem objetivo; não tinham qualquer pauta coerente de reivindicações; e não tinham liderança. Tudo isso mudou quando Khomeini, aiatolá que fazia obcecada oposição ao Xá e que vivera os últimos 14 anos exilado no Iraque, foi atraído para o processo, em janeiro de 1978. Daquele momento em diante, o número dos manifestantes subiu exponencialmente.

Hoje, a questão chave é: será que os recentes protestos de rua, acionados pela difícil disputa eleitoral de junho passado, atraiu um ou mais dos segmentos da sociedade que originalmente ignoraram a fraude eleitoral ou ignoraram as denúncias de fraude?

As evidências disponíveis até aqui sugerem que os protestos, embora continuem a desafiar o governo, estão empacados – embora dia 27/12/2009, dia do ritual xiita da Axura, pela primeira vez os protestos tenham chegado a algumas cidades do interior do país. Mas nada mudou, no perfil social dos participantes: são sempre jovens, universitários, bem vestidos, equipados com celulares de última geração, experientes usuários da Internet, YouTube, Facebook e Twitter.

Na capital, são moradores de Norte Teerã, onde vive cerca de 1/3 dos nove milhões de habitantes da cidade. Ali moram as famílias mais ricas, quase todas com parentes que emigraram para a Europa Ocidental ou América do Norte. Muitos passam férias no Ocidente; praticamente todos falam inglês fluente e são exímios operadores de computadores e laptops.

É claro, pois, que a mídia ocidental – repórteres e analistas – identificam-se muito facilmente com essa porção da sociedade iraniana, focam-se nela, dão mais atenção do que aos demais iranianos, seja deliberadamente ou não.

No outono de 1977, também, essa parte da sociedade iraniana ocupou as ruas, em protestos contra o Xá. A diferença, hoje, está nas proporções e na escala. A Revolução Islâmica provocou uma explosão na educação superior no Irã. Entre 1979 e 1999, enquanto a população dobrou, o número de formados nas universidades foi multiplicado por 9: de cerca de 430 mil, para cerca de 4 milhões de iranianos com curso superior. Há hoje 750 mil jovens iranianos entre universitários e pré-universitários. Isso explica as dimensões das manifestações de rua e a uniformidade dos trajes.

Contudo, a principal questão a ser respondida pelos especialistas tem de ser: nos últimos seis meses, aumentou significativamente o número de manifestantes e ‘protestadores’ saídos das zonas sul de Teerã, onde vivem seis milhões de habitantes? A julgar-se pelas imagens de internet e dos canais de televisão ocidentais, a resposta é “não”. Os habitantes dos bairros sul de Teerã não usam jeans de griffes milionárias; mulheres residentes naqueles bairros, e que saiam para protestos de rua, saem cobertas dos pés à cabeça e sem maquiagem que se veja até em imagens de TV.

Na zona sul de Teerã há o “Grande Bazaar”, oito quilômetros de ruas e vielas, e mais de uma dúzia de mesquitas. Aquele bazaar é a espinha dorsal comercial da nação, com relações comerciais extremamente intrincadas, de cultura islâmica tradicional e de política islâmica. Tendência que se defina naquele bazaar converte-se rapidamente em tendência de todos os outros bazares do Irã. Porque o Profeta Maomé foi mercador, sempre houve uma relação simbiótica entre os mercadores e as mesquitas, desde os primeiros dias do Islã. O Irã não é exceção, e a enorme influência do bazaar continua a não poder ser subestimada. Afinal, faz apenas um século que se descobriu petróleo no país; e a industrialização só ganhou fôlego depois da II Guerra Mundial.

A pergunta, portanto, é: os mercadores do bazaar fecharam suas lojas em solidariedade aos protestadores da Zona Norte da cidade – como, sim, fizeram durante os protestos contra o Xá? Outra vez, a resposta é “não”.

À parte o ato de fechar as portas, se os mercadores tivessem, apenas, se manifestado por blogs e pela internet, online, já bastaria isso para chamar a atenção do Supremo Líder Aiatolá Ali Khamanei. Nem isso aconteceu.

Os limites de 2010

Até aqui, as oposições têm sido lideradas pelos candidatos derrotados à presidência –Mir Hussein Mousavi e Mahdi Karroubi – nenhum dos quais tem nem o estatuto de alto líder religioso nem o carisma de um Khomeini.

Além do mais, a oposição padece de falta de qualquer alta reivindicação de caráter político ou econômico: a oposição não tem o que exigir. Durante o movimento de 1978-1979, Khomeini reuniu à sua volta as mais variadas forças anti-Xá – de clérigos xiitas a grupos marxistas-leninistas –, com uma única reivindicação: destronar o Xá.

E Khomeini soube manter a coesão dessa aliança complexa, porque administrou as reivindicações de cada uma das classes sociais unidas na coalizão anti-Xá. As classes médias conservadoras, de mercadores e artistas, viam nele o defensor da propriedade privada e crente e fiel defensor dos valores islâmicos. As classes médias modernizadas ou em processo de modernização viam nele um líder nacionalista radical, decidido a por fim à ditadura monárquica e à influência estrangeira sobre o Irã. A classe trabalhadora urbana apoiou-o por Khomeini sempre se ter declarado comprometido com a justiça social – e justiça que, como os trabalhadores urbanos intuíam, só seria alcançada mediante uma redistribuição da riqueza, que contemplasse os mais carentes. E as populações rurais mais pobres viam Khomeini como o governante que lhes daria terras aráveis, recursos de irrigação, estradas, escolas, eletricidade.

Khomeini fez praticamente tudo isso, tarefa sobrehumana, ao mesmo tempo em que manteve cuidadoso e atento silêncio sobre temas controversos como “democracia”, “a situação da mulher” e o papel dos clérigos na futura república islâmica.

Hoje, os protestadores de rua só têm, como principal slogan, “Morte ao Ditador”, o que se supõe que signifique “Morte ao Supremo Líder Khamenei” (em persa, a expressão é “Marg bur/Diktator” e rima). E “Morte ao Supremo Líder Khamenei” não é, de modo algum, o que desejam Mousavi ou Karroubi.

Em sua página na internet, Mousavi recentemente exigiu a libertação de todos os prisioneiros políticos e a reforma da legislação eleitoral, além de garantias de liberdade de expressão, de reunião e para a imprensa, como determina a constituição iraniana. Em resumo: quer reformar o sistema vigente; não quer derrubá-lo nem quer ser confundido com quem  clame pela morte do Supremo Líder.

De fato, há um mecanismo na Constituição, pelo qual se prevê a remoção do cargo, do Supremo Líder. A Assembleia dos Sábios, 86 membros eleitos pelo povo, tem autoridade para nomear o Supremo Líder e para destituí-lo. Essa Assembleia é hoje presidida por Ali Akbar Hashemi Rafsanjani. Como ex-auxiliar direto do Aiatolá Khomeini, suas credenciais revolucionárias são tão respeitáveis quanto as do próprio Ali Khamanei.

Rafsanjani apoiou Mousavi na campanha presidencial, com dinheiro e planejamento estratégico. E, se decidir fazê-lo, pode convocar a Assembleia dos Sábios em sessão de emergência, para debater a presente crise provocada por divisões na cúpula do governo. Normalmente, a Assembleia reúne-se duas vezes ao ano. E, político astuto, Rafsanjani não convocará sessão de emergência, antes de consultar individualmente os membros e conhecer todas as opiniões e tendências. Tudo indica que Rafsanjani ainda não reuniu o número de votos que lhe assegure apoio; por isso, ainda não convocou sessão de emergência da Assembleia dos Sábios.

No plano dos movimentos de base, os muitos blogs e websites de oposição raramente discutem o grande quadro. Vivem focados na repressão (brutal) e em denúncias de que o regime de Khamanei ter-se-ia afastado das raízes islâmicas e das promessas revolucionárias de justiça, liberdade e independência.

Mas essas críticas só recobrem as grandes linhas da situação. Não bastam para operar mudanças e reformas no regime. Uma linha complementar de críticas teria de deixar ver melhor as mudanças que os protestadores desejam ver implantadas. No mínimo, seria preciso que a oposição discutisse a questão, o que ninguém está fazendo, para que Mousavi encontrasse melhores reivindicações a apresentar. Agora, por exemplo, Mousavi está exigindo novas eleições presidenciais, a serem organizadas, não pelo Ministério do Interior, como determina a Constituição, mas por ONGs internacionais. Difícil imaginar ideia pior. E a falta de propostas da oposição abrirá, mais cedo ou mais tarde, o caminho para que o presidente Mahmud Ahmadinejad – legitimamente eleito, em eleições nas quais a oposição não encontrou falha (além das que disse que houve, mas jamais comprovou) – componha e comande um governo de unidade nacional composto de seus partidários e de alguns dos líderes da oposição.

A internet é uma das importantes diferenças entre 1979 e 2010, e cria meios para um debate que não houve há uma década. Por outro lado, os dois movimentos, de 1979 e 2010, mantêm a prática de dar uso político aos dias santificados dos xiitas, ao ritual dos xiitas de homenagem aos seus mortos no 40º dia depois da morte, e ao culto dos mártires. O aiatolá Khomeini foi o primeiro a dar uso político a essas datas religiosas. Sempre usou os rituais de homenagem aos mártires assassinados pelo regime do Xá e os converteu, aos poucos, em gigantescas manifestações de rua; também foi o primeiro a usar o mês santificado do Ramadã para incendiar a nação com fervor político-religioso.

As tentativas que a oposição tem feito, para copiar o exemplo de Khomeini, não tem dado resultado entusiasmante, sobretudo porque a oposição não conta com nenhum líder político e religioso que tenha a estatura de Khomeini.

O golpe de misericórdia que Khomeini aplicou ao regime do Xá e que acabou de destruí-lo foi a fatwa (édito religioso) pela qual decretou que atirar contra manifestantes desarmados seria pecado equivalente a atirar numa cópia do Corão. A maioria dos soldados do Xá eram xiitas; no final da disputa a maioria já era constituída de soldados jovens, recém alistados; e esses aceitaram sem discutir a interpretação mais literal da fatwa de Khomeini. Muitos, além do mais, já não confiavam nos próprios comandantes, depois que empregados dos bancos revelaram, em setembro de 1978, que os altos comandantes militares estavam transferindo enormes somas de dinheiro para o exterior. Nesse contexto, não surpreende que quando o Xá abandonou o Irã, em janeir o de 1979, o número de soldados leais a ele já houvesse desabado de 300 mil para cerca de 100 mil, devido, sobretudo, a deserções.

Tudo parece ser muito diferente disso, nas forças de segurança do governo de Ahmadinejad – seja o Corpo de Guardas Revolucionários, seja a milícia Basij, seja a Polícia Especial –, que não vacilaram e obedeceram rigorosamente a ordem para usar a força e dispersar as manifestações de rua. Por sua vez, o regime de Ahmadinejad, que conhece bem o risco de criar mártires e o precedente histórico, tomou o cuidado de restringir ao máximo o emprego de munição real, para dispersar as multidões reunidas pela oposição.

Durante os 12 meses do movimento revolucionário, de 1978 a 1979, o uso indiscriminado de munição real pelos soldados do Xá causou 10 mil (pelas estatísticas do governo derrotado) e 40 mil (pelas estatísticas do governo vitorioso) mortes. Nos seis meses dos atuais protestos de rua no Irã, o número de mortes divulgados pela oposição é 106.

O fator “nacionalismo”

O fato de essa interpretação da atual situação no Irã ter considerado sobretudo a dinâmica política interna não implica que as forças externas sejam  insignificantes. Dada a importância geoestratégica do Irã naquela região e no mundo, qualquer movimento menos amigável de qualquer governo ocidental contra Teerã altera dramaticamente a situação doméstica.

Se, por exemplo, as potências ocidentais conseguirem impor sanções econômicas contra Teerã através do Conselho de Segurança da ONU, a oposição sem dúvida porá fim aos protestos e passará a cooperar com o governo do presidente Ahmadinejad, para enfrentar o que todos verão como ameaça contra a nação; o nacionalismo unificará o Irã.

Com história de mais de 6 mil anos da qual muito se orgulham, os iranianos são exemplo de poderoso nacionalismo contemporâneo. Aí está evidência que os líderes ocidentais não se deveriam expor ao risco de ignorar.

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