O câmbio no lugar – Luiz Carlos Bresser-Pereira

Sugado da Carta Capital

05/03/2010 15:06:53

Luiz Carlos Bresser-Pereira é um economista de muitas ideias na cabeça, todas contrárias à ortodoxia. Uma pode facilmente ser classificada como uma autêntica obsessão, conforme reconhece o professor da FGV-SP e ex-ministro da Fazenda (governo Sarney) e da Reforma Administrativa (FHC). “Há dez anos venho falando do equívoco que é o país crescer com poupança externa”, diz Bresser-Pereira, no confortável escritório onde recebe CartaCapital, em sua casa no bairro do Morumbi, em São Paulo. Cultivada em seminários mundo afora, sua ideia fixa ganhou corpo a ponto de virar um livro (Globalização e Competição, de 2009), com direito a versões em inglês, francês e, ainda no prelo, espanhol.
“Somente na introdução da edição espanhola cheguei ao nome da teoria que está por trás, que inventei depois do livro pronto, a Macroeconomia Estruturalista do Desenvolvimento.” Na entrevista a seguir, Bresser navega por essas e outras águas. Sempre sem perder a chance de alfinetar os seus colegas de ofício, em especial os “phdezinhos” de corte ortodoxo.

ntegra da entrevista com o economista Luiz Carlos Bresser-Pereira (CartaCapital/Edição 586) – Parte 1

CartaCapital: O senhor tem falado da excessiva dependência do Brasil aos investimentos estrangeiros. O senhor poderia resumir a sua análise?
Luiz Carlos Bresser-Pereira:
A coisa começou com a discussão sobre o crescimento com estabilidade, livro que eu fiz com (Yoshiaki) Nakano. Depois fiz uma crítica do crescimento com poupança externa, seja por meio do endividamento ou do investimento direto. Depois cheguei à doença holandesa. O que resultou desse percurso? Em dois livros, o primeiro chamado Macroeconomia da Estabilização, e o segundo, muito mais interessante por ser mais geral, chamado Globalização e Competição, já publicado também em inglês, francês e que agora está saindo em espanhol.

E nesse livro mais recente eu explico o que é o novo desenvolvimentismo, um tema que cada vez atrai mais atenção. E somente na introdução da edição espanhola, que ainda será publicada, cheguei ao nome da teoria que está por trás, que inventei depois, a Macroeconomia Estruturalista do Desenvolvimento.

CC: Em que consiste essa teoria?
LCBP:
Trata-se de estudar o desenvolvimento do ponto de vista da demanda, não da oferta, a partir do pressuposto de que o problema fundamental dos países em desenvolvimento se situa no lado da demanda. Claro que existem problemas de oferta, de oferta de educação, o mais importante, de empresários, técnicos, engenheiros, instituições, tudo isso é importante. Mas são problemas de longo prazo.

Toda a questão do desenvolvimento é saber usar bem esses recursos escassos, e esse é o problema da demanda. São idéias muito novas, muito novas inclusive em relação à Unicamp, embora atualmente eu esteja absolutamente afinado com a Unicamp, onde tenho grandes amigos. Como tenho grandes amigos na Federal do Rio de Janeiro, e não tenho amigo na PUC ou na FGV do Rio, com exceção do Fernando Holanda Barbosa, um sujeito da melhor qualidade. Mas os ‘phdezinhos’, não.

Ontem, li um artigo do Affonso Celso Pastore, que me parece ser o melhor economista ortodoxo do País, um profissional respeitável. Mas é ortodoxo, o que é sempre um desastre. Aliás, toda ortodoxia é uma porcaria: neoclássica, keynesiana, marxista, schumpeteriana e qualquer outra que você mencionar. Mas o Pastore reclama dos economistas que, como eu, defendem uma taxa de câmbio desvalorizada para que haja desenvolvimento, tendo como referência os países asiáticos.

Na análise de Pastore, a desvalorização não é aplicável e, portanto, o Brasil precisa dramaticamente da poupança externa para se desenvolver. É uma bobagem muito grande. Há dez anos faço a crítica do desenvolvimento com poupança externa.

CC: Quais os principais problemas?
LCBP:
Imagina-se que a poupança externa aumentará o investimento, mas não aumenta, o que cresce é o consumo. Às vezes aumenta um pouco também o investimento, mas pouco. Há uma alta taxa de substituição da poupança interna pela externa, e há toda uma teoria para isso.

Quando se decide crescer com a poupança externa, o câmbio se aprecia, necessariamente. A taxa de câmbio que equilibra uma conta corrente com zero de déficit é uma, e a taxa é outra e muito mais valorizada para uma conta corrente com 4,5% de déficit. Quando valoriza o câmbio, os salários aumentam, aumenta o consumo e diminui a poupança interna, já que a propensão marginal a consumir é muito elevada entre os mais pobres, cujos salários aumentaram.

Um outro raciocínio que dá no mesmo resultado: decide-se apreciar o câmbio e ao fazer isso, as oportunidades para investimentos lucrativos em exportação diminuem. Como Keynes, poderíamos dizer também que, quando cai o investimento, cai também a poupança interna. É isso o que o Pastore e os ‘phdezinhos’ não entendem. Eu disse que tenho horror à ortodoxia, não é isso? E também tenho horror ao populismo.

Quando fui ministro da Fazenda, no final dos anos 80, definiu-se o que era o populismo econômico, já que o populismo político é uma coisa muito antiga. Em 1991, organizei um livro sobre o populismo econômico, que significa basicamente gastar mais do que se arrecada, irresponsavelmente. Quando se pensa em populismo, pensa-se em populismo fiscal, o que significa dizer que não se deve ter déficits públicos ou deve-se ter um déficit pequeno que não aumente a dívida pública.

Se você for populista, gasta o que puder, como fez o governo conservador grego, um desastre completo, com a ajuda da Goldman Sachs, para esconder o déficit. Mas não entendo como esses economistas ortodoxos são contra o populismo fiscal, como eu também sou contra, mas são a favor do populismo cambial. Ou seja, o Brasil inteiro gastar mais do que arrecada é bom porque aumentaria o investimento, que já vimos que não aumenta. Que negócio é esse?

Íntegra da entrevista com o economista Luiz Carlos Bresser-Pereira (CartaCapital/Edição 586) – Parte 2

CC: Esses economistas não são ingênuos. Por que defendem essa política?
LCBP:
Você quer que eu faça economia política, mas hoje eu não estou muito animado a fazer economia política. Estou convencido de que essa macroeconomia estruturalista do desenvolvimento é uma coisa muito nova. E se baseia fundamentalmente em duas tendências. Uma, que discuto muito nesse livro, é a tendência à sobreapreciação da taxa de câmbio em todos os países em desenvolvimento, o que nunca ninguém disse antes.

A outra, que não discuto suficientemente no livro porque não era esse o objetivo, é a tendência dos salários crescerem menos do que a produtividade. Dois problemas de demanda. Se os salários crescem menos que a produtividade, significa que a demanda que vêm dos salários ficará insuficiente. Por que o Brasil cresceu bem nos últimos três anos? Fundamentalmente porque houve uma política distributiva, especialmente com o aumento real do salário-mínimo, o bolsa-família e o crédito consignado, sendo que este último considero não ser boa coisa.

Essas três coisas criaram demanda interna, neutralizando a tendência de crescimento menor dos salários. E porque existe essa tendência? Porque nos países em desenvolvimento existe a famosa oferta ilimitada de mão-de-obra, como se sabe desde meados dos anos 1950. Outro problema é a taxa de câmbio, rigorosamente um problema de demanda. Se houver uma taxa de câmbio de equilíbrio, uma empresa brasileira competitiva internacionalmente pagando salários mais baixos do que os europeus ou japoneses, essa empresa terá toda a demanda do mundo para ela.

Agora, se a taxa de câmbio fica não competitiva porque cronicamente sobreapreciada, essa mesma empresa perderá toda essa demanda. Ninguém diz isso, mas taxa de câmbio é uma variável que determina a demanda para as suas exportações, logo é fundamental para o País. E o que é a tendência à sobreapreciação do câmbio? Muito simples. É que a taxa de câmbio em um país em desenvolvimento, se deixada totalmente livre, em vez de flutuar suavemente em torno do equilíbrio, como supõe um economista ortodoxo ou neoclássico, ou volatilmente em torno do equilíbrio, como pensa um economista ortodoxo keynesiano – também sou keynesiano, mas não ortodoxo –, a taxa de câmbio começa com uma crise em que ela se deprecia violentamente, depois vai gradualmente se apreciando, o país entra em déficit em conta corrente, aumenta a dívida externa, até que em um certo momento os banqueiros perdem a confiança e surge uma crise de balança de pagamentos. O que eu explico é óbvio, mas não está nos livros-texto nem nos papers nem em lugar nenhum.

CC: Por que isso acontece?
LCBP:
Por dois motivos. Um é a doença holandesa, que muda tudo na ciência econômica e isso foi a coisa mais incrível que descobri. Eu não descobri a doença holandesa, ela foi descoberta pelos holandeses nos anos 1960 e a Economist a definiu nos anos 70 com esse nome. No começo dos anos 80, um grande economista de economia internacional fez um paper teórico importante, mas acho que o meu paper, o capítulo 5º do livro, muda muito a visão sobre a doença holandesa.

CC: Em que sentido?
LCBP:
Naquela tendência, a doença holandesa puxa a taxa de câmbio do “equilíbrio” industrial para o “equilíbrio” corrente. O meu modelo de doença holandesa diz que ela tem origem em uma renda ricardiana, relativa aos recursos naturais e diferenças de produtividade. E faz com que o País tenha duas taxas de câmbio de equilíbrio. O que é o equilíbrio corrente? É a taxa de câmbio que equilibra intertemporalmente a conta corrente do país. E a de equilíbrio industrial, e esse conceito é a grande novidade, é a taxa de câmbio necessária para que indústrias, utilizando tecnologias no estado da arte mundial, sejam competitivas internacionalmente.

A doença holandesa é causada principalmente pelo petróleo, especialmente quando é muito barato, como na Venezuela ou Arábia Saudita, aí a doença é muito grave. Se a Daimler-Benz resolver instalar uma fábrica de automóveis na Venezuela, aproveitando a sua mão de obra barata e com toda a sua tecnologia mais moderna, todos os insumos garantidos, seis meses depois ela vai à falência. E por quê? Porque todos irão preferir comprar um carro fabricado na Alemanha, que é mais barato, ora bolas, pela taxa de câmbio venezuelana seria inviável. Nesses casos, a diferença entre as duas taxas de equilíbrio pode chegar a 95%.

CC: E a doença pode ser mais leve?
LCBP:
Pode ser sim, se tem origem na soja ou no café, por exemplo, ou na cana-de-açúcar, no minério de ferro. Nesses casos, a doença holandesa é menos grave, de algo em torno de 25%. No caso do cobre, a situação é mais grave. E como neutralizar a doença holandesa? Neutraliza-se colocando um imposto sobre o produto exportado do tamanho da doença, de modo a deslocar a curva da demanda. Por isso não aceito as críticas do Pastore. Não quero uma taxa de câmbio desvalorizada, mas uma taxa de câmbio de equilíbrio. A diferença é que para mim o equilíbrio que conta é o industrial, que desconfio esteja hoje entre 2,30 e 2,50 reais por dólar.

Isso é a taxa de equilíbrio verdadeira, não a de 1,85 ou 1,90, que equilibra a conta corrente. E isso porque existe esse problema da doença holandesa. Durante 60 anos, o Brasil neutralizou a doença holandesa. Imaginava-se que os impostos e subsídios criados no tempo do Delfim Netto eram protecionismo, mas é falso. Depois da teoria da doença holandesa, descobre-se que boa parte do que se chamava de protecionismo era mera neutralização. Proteção mesmo existiu nas indústrias nascentes, para começar o negócio. Mas o Brasil neutralizou a doença holandesa em todo esse período dessa maneira, colocando impostos.

Entre 1990 e 1992, o Brasil fez a abertura comercial e tiramos todas as tarifas. Também fizemos a abertura financeira e perdemos o controle sobre a taxa de câmbio. Resultado, desde aquela data o Brasil está se desindustrializando.

Íntegra da entrevista com o economista Luiz Carlos Bresser-Pereira (CartaCapital/Edição 586) – Parte 3

CC: O Brasil está mesmo se desindustrializando?
LCBP:
O Brasil está se desindustrializando. Se um país resolve neutralizar a doença holandesa e consegue, ele irá deslocar a sua taxa de câmbio do equilíbrio corrente para o industrial, por meio do imposto. E depois o ideal é que também seja criado um fundo soberano, para que os recursos não entrem no país, como faz a Noruega. Isso feito, o que acontecerá? O Brasil terá um superávit em conta corrente. Se todos os países em desenvolvimento superarem a sua doença holandesa, eles terão superávit em conta corrente e todos os países ricos vão começar a ter déficits.

Eu parei a redação desse paper sobre doença holandesa duas vezes. Na primeira interrupção, eu pensava o seguinte: se o Brasil tem doença holandesa hoje é porque sempre teve. Mas como nunca discutimos isso antes, como se explica? Até que um dia conversava com o economista chileno Gabriel Palma, de Cambridge, que é ótimo, e ele me disse. “Mas não fizemos outra coisa na América Latina, Luiz Carlos.” Aí caiu a ficha. Fizemos isso administrando o câmbio, com confisco cambial, taxas múltiplas, tarifas, subsídios.

O modelo do Delfim era ótimo, o dos anos 70. O que ele fazia? Ele colocou um imposto de importação de 50% em média sobre tudo o que era importado. E colocou um subsídio de exportação para manufaturados de 50%. E com isso neutralizava a doença holandesa. Então, no lugar daquilo que o Pastore acredita, teremos países em desenvolvimento investindo no exterior, comprando ações, recomprando as empresas que vendemos para eles, etc.

CC: O senhor disse que todos os países em desenvolvimento têm a doença holandesa. É isso mesmo?
LCBP:
A China também tem doença holandesa, ela só cresce extraordinariamente porque neutraliza a doença holandesa, assim como todos os países asiáticos dinâmicos, mesmo com pouco ou quase nada de recursos naturais, cujo desenvolvimento está baseado na indústria. E isso porque eles têm duas coisas: mão de obra barata e um leque salarial muito grande, muito maior do que nos países ricos. Leque salarial é a diferença entre o salário médio de um engenheiro de fábrica e o salário médio de um operário. Na Europa, essa relação é de três vezes.

Nos EUA, deve ser de 4 a 5 vezes. No Brasil, de 10 vezes. Na China, deve ser de 12 a 14. Por que é necessária essa segunda condição? Eu disse que a doença holandesa é causada por uma renda ricardiana, ou seja, é causada pelo custo marginal muito baixo do petróleo, do minério de ferro, da soja… E a taxa de câmbio é definida pelo produto que gera mais rendas ricardianas. No caso de um país com mão de obra barata, a renda ricardiana é produzida pelos trabalhadores mais baratos, digamos, para simplificar, por aqueles que ganham o menor salário.

Agora se o leque é muito maior, como ocorre com a China, aí então a China não iria exportar nada de mais sofisticado, ao contrário do que estamos vendo com o desenvolvimento industrial altamente sofisticado do ponto de vista tecnológico. Então quando se diz que a taxa de câmbio na China é desvalorizada, é falso. Ela está simplesmente neutralizando a sua doença holandesa. A China tem déficit comercial com os países asiáticos. Portanto, se o câmbio da China está desvalorizado é porque também estão desvalorizadas todas as demais moedas da região, e isso é conversa. Participei recentemente de uma conferência na Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento), em Genebra, sobre os fluxos financeiros, os desequilíbrios das balanças de pagamentos e o deslocamento do centro do mundo, que estão acontecendo.

E a tese que defendi foi a seguinte. Comecei perguntando por que estamos vendo esse deslocamento do centro do mundo para a direita? Por que estamos vendo esses enormes superávits em conta corrente dos países em desenvolvimento? Qual a explicação para isso? A explicação que dão por aí é de que se trata de precaução, mas isso é conversa. Pode ter um elemento de precaução, mas é secundário, e por que só agora ficaram precavidos? O que está acontecendo é que eles estão descobrindo a doença holandesa, estão descobrindo que para crescer precisam de uma taxa de câmbio competitiva, e que taxa de câmbio competitiva é a que consegue neutralizar a doença holandesa.

CC: No Brasil, a doença holandesa está sendo controlada?
LCBP:
O Brasil também está descobrindo, devagar. Há cinco anos, não havia nenhuma notícia. O primeiro artigo fui eu que escrevi na Folha, em 2005. Hoje há uma grande discussão, um monte de gente falando. O presidente Lula, quando lança o pré-sal, fala que vai neutralizar a doença holandesa. O Guido não reconhece que existe a doença holandesa causada pela soja porque não tem meios de combatê-la abertamente, então ele tem de ficar quieto. Mas é só por essa razão, no meu entender.

O imposto sobre esses produtos tem de ser variável. Quando sobe o preço internacional do produto, é preciso aumentar o imposto. No caso de certas commodities agrícolas, o produto pode ficar gravoso, ou seja, deficitário. Aí então é preciso tirar todo o imposto e ainda criar um subsídio durante algum tempo.

Íntegra da entrevista com o economista Luiz Carlos Bresser-Pereira (CartaCapital/Edição 586) – Parte 4

CC: E como o senhor vê a discussão no Brasil em torno da valorização do real?
LCBP:
O equívoco da ortodoxia é absoluto. Estamos hoje com uma taxa de câmbio inferior à do equilíbrio corrente, entrando naquela área de déficit em conta corrente, quando devíamos estar muito acima, na área do equilíbrio industrial. Então há uma enorme sobreapreciação da taxa de câmbio no Brasil. Se ela não existisse, o Brasil estaria crescendo mais de 7% ao ano, tranquilamente. O Brasil só cresceu 5% nos últimos quatro anos, com exceção de 2009, graças ao mercado interno.

CC: Como o senhor avaliou a criação do IOF de 2% sobre o capital estrangeiro?
LCBP:
O IOF foi uma maravilha. Como se administra a taxa de câmbio? Além do imposto para a doença holandesa, eu posso precisar administrar a volatilidade da taxa de câmbio, especialmente quando começa a entrar capital demais. E estamos recebendo capital de que não precisávamos de jeito nenhum, estamos inundados de capital. Então a solução é o controle de capital, que tinha virado nome feio. Controle de capital e proxenitismo eram mais ou menos sinônimos, como, por sinal, o desenvolvimentismo.

Então o Guido teve muita coragem, que fique bem declarado isso, e decidiu fazer um controle de capital, modesto, pequeno, mas que foi uma beleza. A taxa de câmbio já estava em 1,70 e indo para baixo, e até subiu um pouco. Então não estamos mais ao ‘deus-dará’. Outra coisa que se faz, e já estamos fazendo há tempo, é comprar reservas e esterilizar, mas isso tem geralmente uma capacidade limitada.

CC: No caso do pré-sal, economistas do governo e alguns ligados ao Serra sugerem a criação de um fundo soberano. O senhor concorda com a ideia?
LCBP:
É claro que vamos precisar de um fundo soberano. Não precisaremos do imposto de 98% dos Emirados Árabes. Com isso, eles têm uma taxa de câmbio perfeitamente neutralizada, correta, que lhes permite ter uma indústria do turismo, que é um setor tradable, e curiosamente estão se desenvolvendo. O único país árabe que se desenvolve, com essa taxa de imposto brutal.

Como o nosso custo de exploração do petróleo é muito mais alto, não precisaremos de uma taxa tão alta. Mas de qualquer forma vamos precisar de um imposto alto. E não devemos gastar todo esse imposto no Brasil, devemos deixar uma parte no exterior, em um fundo soberano, sem dúvida.

CC: O senhor havia mencionado a relação entre salários e produtividade. O senhor poderia falar mais a respeito?
LCBP:
O peso dessa relação é muito importante. Um país grande como o Brasil não pode se desenvolver apenas com as exportações. É preciso se voltar para o mercado interno. E a tendência de os salários crescerem menos que a produtividade cria problemas ao tirar demanda. Claro que existem soluções para isso, tenho até um livro sobre isso dos anos 70 e muita gente também escreveu. Eu tratava da concentração da renda na classe média para cima e da especialização em produtos que naquela época eram de luxo, fundamentalmente a indústria automobilística.

E qual era a tese ortodoxa? Dizia-se que não era possível aumentar o salário-mínimo porque causaria inflação, quebraria o Estado. E não quebrou coisa nenhuma. O Fernando Henrique aumentou um pouco, e o Lula aumentou bastante. E vamos reconhecer que foi um grande sucesso essa política. Como o Celso Furtado cansou de escrever, os sindicatos foram fundamentais no desenvolvimento econômico porque têm um papel de aumentar salários. O perigo é quando os salários crescem acima da produtividade, aí os lucros são estrangulados.

A lei fundamental do capitalismo é que os empresários precisam ter boas oportunidades de investimento lucrativo. Eles têm de ter demanda para terem isso. Então precisam de demanda interna e também de uma taxa de câmbio. Esta é a lógica completa do sistema.

Íntegra da entrevista com o economista Luiz Carlos Bresser-Pereira (CartaCapital/Edição 586) – Parte 5

CC: O senhor acha que o neoliberalismo morreu?
LCBP:
O neoliberalismo, se não morreu, está muito mal. Foi uma ideologia que uniu rentistas a uma tecnoburocracia de jovens brilhantes da área financeira, com phds mas principalmente com mbas nos EUA, criando inovações financeiras muito inteligentes e muito espertas, que permitirão aos rentistas aumentar os seus rendimentos em três ou quatro vezes nos últimos trinta anos. Foram os anos neoliberais, entre 1978 e 2008, mas o desastre foi muito grande. No começo, pensávamos que o desastre neoliberal era apenas para nós, era o Consenso de Washington, a ortodoxia convencional que nos prejudicava fortemente.

Quando eu escrevi o livro Macroeconomia da Estabilização, eu estava preocupado com essa questão. Quem se desenvolvia? Quem tem uma nação forte e, portanto, não ouve os seus competidores, era a minha tese fundamental. Eu dizia que os países ricos estavam ‘chutando a nossa escada’, estavam interessados em ganhar dinheiro aqui e não no nosso desenvolvimento. Quando a China e a Índia fazem com competência a política do câmbio administrado, eles demonstram ser nações fortes, e nós não. Mas o que se verificou na crise é que a coisa deu um bumerangue.

Aquilo que eles nos aconselhavam e parecia que não cumpriam, eles também estava fazendo para eles próprios, não tudo, mas o suficiente para quebrarem da maneira lamentável como quebraram agora. O fracasso do neoliberalismo e a criação de riqueza financeira fictícia, com a multiplicação por três ou quatro vezes dos ganhos dos rentistas, tudo isso deu um bumerangue. Acho que o discurso neoliberal está morto.

CC: Também no Brasil?
LCBP:
No caso brasileiro, além do Lula, parece que existe um outro herói no Brasil, o Henrique Meirelles. Todos os brasileiros somos reféns da inflação. E acreditamos que é graças ao Meirelles e ao Banco Central que a inflação está baixa no Brasil, o que é ridículo. A inflação está baixa porque foi neutralizada a inércia em 1994. E principalmente porque desde 1999 o Brasil tem uma política fiscal responsável, são esses os dois motivos.

Essa política de meta de inflação foi só um jeito de aumentar a taxa de juros de forma a dar vantagem aos rentistas. E usaram a taxa de câmbio para controlar a inflação, em vez de fazer um controle da inflação mais correto, por meio da desindexação dos preços públicos. O Lula está com 80% de apoio e ele próprio acha que deve uma parte disso ao Meirelles. É um equívoco monumental, mas o que se pode fazer?

CC: O Meirelles é uma espécie de totem para os dois lados. Para o Lula, por essa razão que o senhor mencionou. E para a oposição, por supostamente representar a continuidade da política econômica anterior.
LCBP:
A sua análise é correta. Mas isso uma hora acaba.

CC: Acaba bem ou mal?
LCBP:
Acaba bem. O Brasil avançou bastante na defesa dos seus interesses. Mesmo no governo Fernando Henrique, a Petrobras não foi vendida. Não vendeu todas as hidrelétricas, vendeu uma parte. E agora no governo Lula as ações do Ministério da Fazenda, do BNDES, são ações voltadas ao interesse nacional, muito claramente.

Critico muito os brasileiros porque são pouco nacionalistas. Mas quando vou ao exterior e vejo compararem o Brasil com os demais países da América Latina, percebo que somos os mais capazes de defender os próprios interesses. O México também era assim, até que um dia um senhor chamado Salinas assinou a carta de submissão aos EUA, e aí foi uma desgraça.

CC: O Brasil quase foi nessa também, não?
LCBP:
A gente quase foi porque a hegemonia neoliberal dos anos 90 era muito violenta, então todos nós caímos, cada um de um jeito. Eu mesmo em alguns momentos tremi. Ninguém escapa a esse tipo de hegemonia. Nos anos 90, começaram as crise, no México, depois na Ásia, que foi muito importante, na Rússia, no Brasil, na Turquia e depois, em 2001, na Argentina. Essas crises fizeram o Terceiro Mundo abrir os olhos. E depois vem essa crise de 2008 que faz os países do Primeiro Mundo verem que estavam eles próprios sendo completamente enganados.
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