O SOFÁ CENOGRÁFICO DO KASSAB E A IRRESPONSABILIDADE DOS ELEITOS

sugado do Azenha

Atualizado em 08 de março de 2010 às 14:11 | Publicado em 08 de março de 2010 às 13:46

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Kassab e seu sofá cenográfico: ele aprendeu com a Bachelet?

por Luiz Carlos Azenha

Outro dia notei o descompasso entre a propaganda da Sabesp, a empresa que vende “saúde”, e o fato de que a Sabesp atira esgoto nos rios de São Paulo; o descompasso entre o “São Paulo, cada vez melhor” e as duríssimas condições de vida da imensa maioria dos paulistanos; e o descompasso entre o ufanismo do Brasil, “sede das Olimpíadas” e a realidade cruel das ruas do Rio de Janeiro.

Essa impressão de que a fusão entre propaganda e política criou uma realidade paralela só se aprofundou em minha recente visita ao Chile.

Comecemos do começo. Se Hitler, lá atrás, com os filmes de Leni Riefenstahl e o rádio, deitou as bases sofisticadas do modelo, a política só se tornou refém da propaganda, mesmo, depois do advento da televisão. Há os famosos comerciais de Eisenhower, em 1952, quando a televisão engatinhava nos Estados Unidos (veja um deles aqui).

Os debates entre John Kennedy e Richard Nixon, nos anos 60, talvez tenham sido os primeiros em que uma aparição televisiva teve influência importante no resultado: a maquiagem de Nixon se desfez sob os refletores e o lado sombrio do candidato foi exposto inadvertidamente (lado sombrio que só se revelou plenamente depois do impeachment de Nixon e da abertura dos arquivos reveladores de um presidente emocionalmente instável).

Em 1964, o famosíssimo anúncio da menina e a margarida (clique aqui para ver) marcou a estreia das campanhas negativas: Lyndon Johnson, malandro, simplesmente acusou seu adversário republicano, Barry Goldwater, de representar risco de uma hecatombe nuclear.

Nos dias de hoje, a simbiose entre a mídia, propaganda e política é tamanha que muitos magnatas do ramo simplesmente dispensaram intermediários, como Berlusconi na Itália e Bloomberg em Nova York.

Diante de um problema de graves proporções, portanto, é apenas natural que os políticos peçam socorro antes de mais nada aos marqueteiros: é a despolitização da política. O eleitor como consumidor, não como cidadão. Tudo se resolve com o “reposicionamento” da marca, que é o que me ocorreu quando vi pela primeira vez o anúncio do DEM sobre as enchentes em São Paulo (está aqui): nele, Gilberto Kassab nos quer fazer crer que passa as noites de sábado catando bagulhos nas ruas de São Paulo, que a cidade enfrentou um dilúvio e que, portanto, ele não tem responsabilidade alguma pelas enchentes. É apenas mais uma vítima delas.

Kassab posa com um sofá cenográfico no último take do anúncio, aquele sofá ao qual a lenda urbana atribui a culpa pelas enchentes no rio Tietê (não à falta de limpeza da calha do rio durante os anos de 2006, 2007 e 2008, de responsabilidade do governardor José Serra). É uma peça publicitária que trabalha sobre um dado razoavelmente aceito pela própria população, no sentido de reforçá-lo, seja ele verdadeiro ou não. A “tarefa” visual do anúncio é a de enfatizar que “sim, somos porcos, jogamos lixo na rua, merecemos as enchentes como punição pelo nosso próprio desleixo”.

Não se trata, portanto, da propaganda tradicional para tornar conhecido um político ou suas realizações. Avançamos várias casas nesse jogo: agora o marketing tenta transferir a responsabilidade dos eleitos para os eleitores. “Estava indo tudo bem, até que veio o dilúvio”, diz a propaganda de Kassab, quando o fato é que o “dilúvio” nos revelou o quanto não estava indo “tudo bem”.

A simbiose entre propaganda e politica nos levou a isso e, pelo que vi no Chile, não se trata de um fenômeno nacional. Durante a cobertura do terremoto naquele país me dei conta de que havia a realidade dos atingidos — sem água, sem energia, sem comida, algumas centenas de milhares sob toque de recolher durante 18 horas por dia —  e a realidade paralela dos políticos, especialmente em Santiago, a capital chilena distante 400 km das áreas mais destruídas.

Nessa última, a presidente Michelle Bachelet se dizia “dolorida”, ” sofrida”  e outras coisas do gênero, a classe média chilena balançava bandeiras nas antenas de automóveis e uma onda de solidariedade televisiva regurgitava celebridades — no mesmíssimo momento em que os chilenos realmente tocados pelo terremoto continuavam desesperados atrás de água e de comida.

Uma das primeiras photo-ops da presidente Bachelet em Concepción foi em um ginásio repleto de geladeiras, fogões e outros eletrodomésticos saqueados nos dias anteriores: era sinal de que os moradores locais estavam arrependidos e de que o Chile recuperara sua imagem internacional desgastada pelo vandalismo graças à mão firme da presidente. Enquanto isso, eu mesmo vi, a menos de 20 quilômetros dali, que os saques em armazéns de um porto da região continuavam, em meio à completa inépcia da ação governamental.

O governo chileno reduziu, arbitrariamente, o número de mortos, passando a contar apenas os que haviam sido identificados, como se morto sem identiticação fosse menos morto. Quem mandou morrer sem documentos? Fiquei espantado com o descompasso entre a realidade virtual e o que vi com meus próprios olhos: Bachelet, posando de avozinha da nação e com amplo apoio da mídia, tratava de transferir para os “vândalos” e os “mortos sem documentos” a responsabilidade pela resposta inepta, tardia e, no caso do tsunami, irresponsável do governo liderado por ela.

Soube que gente do DEM foi ao Chile observar a vitória de Sebastián Piñera. Vai ver que aprenderam com Bachelet o truque do sofá cenográfico do Kassab.

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