O frágil arranjo pós-crise pode entrar em colapso

sugado do Azenha

http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/o-pos-apocalipse.html

Finanças-zumbi, no pós-apocalipse

23/3/2010, David P. Goldman, “Spengler” , Asia Times Online (clique aqui para ver as figuras que acompanham o texto original)

David P Goldman é editor de First Things

Tradução da Caia Fittipaldi

Lá por 2014, disse John Lipsky do FMI dia 21 de março, a proporção entre a dívida bruta e o produto interno bruto dos países do Grupo dos 7 alcançará 100%, e os governos do mundo industrializado terão de carregar o peso da maior dívida desde o final da II Guerra Mundial.

Até aí, a má notícia; a notícia muito pior é que os governos estão fazendo chover dinheiro no sistema bancário mundial para financiar a expansão da dívida. Depois do grande ‘resgate’ dos bancos em 2008, o sistema bancário mundial foi, de fato, socializado, com recursos dirigidos para financiar as dívidas dos governos e afastados do financiamento para o setor privado.

Os governos evitaram um apocalipse financeiro em 2009 e ‘resgataram’ o sistema bancário. Mas quem resgatará os governos? Por enquanto, a resposta é que eles mesmos se resgatarão, à custa da economia privada. No mundo financeiro pós-apocalipse, os bancos privados estão convertidos em zumbis comedores de carne humana que canibalizam a economia privada para financiar os governos, com táticas jamais vistas desde a II Guerra Mundial.

A deriva do poder econômico na direção dos governos e seus agentes auxiliares, os grandes bancos, é coisa que jamais se viu no mundo em tempos de paz. E a intenção do governo Obama parece ser “não desperdiçar nenhuma crise”, nas palavras do principal assessor do presidente, Rahm Emanuel, em frase que ficou famosa. O plano de saúde de Obama, de um trilhão de dólares, votado na Câmara de Deputados dia 21 de março, efetivamente estatizará um setor que representa 14% da economia dos EUA – estatização que se soma à estatização de facto do sistema bancário.

Os bancos norte-americanos reduziram a carteira de empréstimos em cerca de 350 bilhões de dólares – mais de 1/5 –, desde o início de 2009; e compraram 300 bilhões de bônus do Tesouro. Os bancos que mais compraram bônus do Tesouro dos EUA ao longo dos últimos sete meses foram os bancos globais sediados em Londres e nas ilhas Caimã: tomam empréstimos ao custo de 1/5 de ponto percentual e compram bônus do Tesouro dos EUA pelos quais pagam de 1% a 3%, dependendo do prazo.

É o famoso “carry trade”, pelo qual os bancos e hedge funds tomam empréstimos de curto prazo e juros muito baixos e emprestam com prazos médios e longos e juros mais altos. Funciona, enquanto os juros de curto prazo permaneçam extremamente baixos. No instante em que o custo do dinheiro tomado começar a aumentar, o “carry trade” negociado com bônus do Tesouro garantidos pelo governo dos EUA entrará em colapso.

Entre novembro e janeiro, último mês para o qual há dados do Tesouro, investidores privados (sobretudo bancos) compraram 60 bilhões em bônus do Tesouro e moeda por mês – cerca de 720 bilhões por ano, ou cerca da metade do total anualizado de todos os empréstimos tomados pelo governo dos EUA.

Observe-se que os bancos centrais do mundo não aumentaram significativamente a quantidade de bônus garantidos pelo governo dos EUA que possuem. Suas compras mantêm-se num patamar modesto de 20 bilhões de dólares/mês, ou 240 bilhões/ano.

O Tesouro dos EUA já é dependente dos bancos privados globais. Segundo dados do Tesouro, $108 bilhões dos $180 billhões de compras líquidas de bônus garantidos pelo Tesouro dos EUA, desde janeiro, foram compradas por bancos sediados em Londres e nas Ilhas Caimã.

O que mais chama a atenção é a disposição da finança mundial para financiar o déficit norte-americano com juros reais de menos de 0,5%. A taxa de juro real extremamente baixa implica expectativas de crescimento muito baixo nos próximos cinco anos. Trata-se de alguma coisa parecida à “década perdida” do Japão nos anos 90s, quando os bancos compravam bônus do Tesouro com taxas de menos de 1% com dinheiro “dado” pelo Banco Central.

Onde os bancos estão obtendo dinheiro para emprestar ao governo dos EUA? Do próprio governo dos EUA. O Federal Reserve aumentou suas reservas para $1,4 trilhões desde o início da crise, alimentando com fundos o sistema bancário, fundos os quais os bancos imediatamente tornam a emprestar ao governo e que se somam a outros $300 bilhões de fundos adicionais liberados pela redução dos empréstimos para o setor privado.

A base monetária está crescendo em ritmo de 40% ao ano. Sob circunstâncias normais, bastaria para levar a inflação ao patamar de dois dígitos. Enquanto os bancos reduzem os empréstimos para o setor privado e compram bônus do Tesouro que substituem as taxas perdidas de juros, o resultado é a chamada “arapuca da liquidez” [ing. liquidity trap].

Com 20% de desemprego ou subemprego nos EUA, segundo pesquisa de fevereiro de 2010 em 20 mil famílias, os custos trabalhistas continuarão deprimidos. A inflação no preço das commodities não aparecerá facilmente manifesta na inflação nos preços ao consumidor.

Esse tipo de equilíbrio-zumbi manteve-se ‘estável’ durante vinte anos na economia moribunda do Japão; em teoria, o Tesouro dos EUA e o sistema financeiro podem permanecer indefinidamente nesse ‘equilíbrio’. Mas há mil e uma vias pelas quais pode acontecer de esse arranjo desabar.

Governos mais fracos, como Grécia ou Espanha, ou até o Reino Unido, podem romper a corrente. Fugir dos dólares norte-americanos, em resposta à inflação monetária, pode forçar o Federal Reserve a subir a taxa de juros. Os investidores podem tentar afrouxar o “carry trade”, o que provocará um estouro da manada em direção à porta de saída. O Japão conseguiu manter inflada essa bolha durante 20 anos. Mas o Japão podia apostar na força de seu sistema bancário doméstico sob a supervisão do Banco do Japão; os EUA dependem do status de reserva do dólar, o que faz cada vez menos sentido, se o Tesouro está inundando o mundo com papéis norte-americanos podres.

Jamais antes se viu coisa semelhante, e todos hesitam e ninguém quer arriscar previsões sobre arranjo tão absurdo e instável; e a lista de potenciais pontos de ruptura é infindável. Agora, quando todo mundo está comprando a dívida do governo dos EUA construída com dinheiro emprestado, nem o dinheiro faz sentido. Vai acabar mal – mas ainda é cedo demais para saber como e quando.

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