Passeata dos professores paulistas

comentário brilhante do Luiz Lima, palpiteiro no Nassif

Luiz Limadisse
30/03/2010 às 7:31

Talvez eu seja mesmo um dinossauro, quem sabe. Um padre de passeata, como dizia o Nelson Rodrigues. Mas não consigo absorver a ideia de que a manifestação de rua – recurso legítimo, absolutamente democrático, demonstrativo cabal da capacidade de mobilização de uma classe em torno de suas bandeiras de luta e que confere visibilidade às suas reivindicações, entre muitas outras coisas – esteja, aqui, sendo execrada porque “atrapalha o trânsito” e “incomoda os transeuntes”. Ou ainda, porque é “démodé”, nada mais que um “recurso velho” como arma de luta política. Ou – como se apressa a exclamar a pequena-burguesia incomodada com o calor e o engarrafamento – um ato de… “radicalização (credo em cruz!) do movimento”.

E olha que quem se manifesta deste jeito é gente que cresceu embaixo da ditadura militar, que teve condições de acompanhar a luta da classe operária e do todo o povo pela conquista dos mais comezinhos direitos – liberdade de associação e manifestação sendo um deles. O que deveríamos ter dito aos operários do ABC em 1979? Que ficassem em casa, obedientes à lei e à ordem, esperando que os patrões, “esclarecidamente”, atendessem suas reivindicações? E aos cem mil que foram às ruas contra o terrorismo de Estado em 1980? Que “radicalizaram” contra o gov Figueiredo? E ao milhão de pessoas que entupiram a Av. Pres. Vargas num 10 de abril, dia útil, para pedir eleições para presidente? Que deviam ganhar uma advertência por faltar ao trabalho? Que, se fosse hoje, deveriam estar em casa, blogando e “twittando”?

A desmobilização popular é um dos legados mais tenebrosos da era neoliberal. Fomos ensinados a pensar que a “democracia” – limitada às eleições periódicas disputadas pelos partidos da ordem – era a solução para todos os problemas. Que os “radicalismos” eram inúteis, feios, velhos e não cabiam no mundo pós-moderno. Que não havia mais nada a conquistar, posto que “a lei” – ora, a lei – estava, finalmente, do “nosso lado”. Fomos bem treinados e aprendemos direitinho o mantra, tanto que nos metemos a ensiná-lo… aos professores.

Então, querem saber do que mais? Mestres, ganhem o mundo. Manifestem-se. Lutem por suas reivindicações. Incomodem os motoristas. Engarrafem as ruas. Não aceitem provocações. Bloguem e “twittem”. Dêem narizes de palhaço ao povo. Não abandonem nenhuma forma de luta. Todas são legítimas.

Responder
Anúncios

Tags: , ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: