Jotavê disse: Método Waldorf

sugado de palpiteiro no  nassif

http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2010/04/09/as-escolas-waldorf/#comments
9/04/2010 às 9:32

Para além dos méritos ou deméritos do método Waldorf, seria bom pensarmos um pouquinho a respeito das motivações do ENTUSIASMO que muitos sentem por esse tipo de método. Se não me engano, o próprio post já nos dá algumas dicas a respeito disso. O Luís fez questão de salientar que a administração da escola é “colaboracionista”. Ou seja, não existe a figura do “administrador”. Pais, professores e “colaboradores” (também conhecidos como “funcionários”) formam “conselhos” que administram a escola. A ideia, portanto, é dissolver a figura da autoridade, suavizar (até apagar, se possível) os contornos da hierarquia, não apenas na sala de aula, mas já na estrutura funcional da instituição.

Que mal há nisso? Não sei. Ou, melhor. O que sei é insuficiente para formar um juízo. Prefiro, por isso, refazer a pergunta. Que BEM há nisso? O que leva tantas pessoas a se entusiasmarem por esse tipo de projeto, mesmo sem ter, como eu, uma ideia clara a respeito dos prejuízos e benefícios efetivos da aplicação desse tipo de método na educação de nossos filhos? O que leva, enfim, tantas pessoas a terem uma propensão tão grande a aceitar o método, e DEPOIS sair à cata de quaisquer dados que possam encontrar para trazer apoio às suas simpatias prévias?

A escola Waldorf realiza, em ponto menor, um certo ideal de sociedade – a sociedade autogerida, na qual as pressões do grupo sobre o indivíduo seriam maximamente superadas, e cada um de nós teria a oportunidade de se construir autonomamente. Nâo haveria a imposição de um modelo externo. No máximo, os “facilitadores” (professores) poriam diante da criança um cardápio de opções existentes na cultura, para que ela própria, a partir de um certo impulso básico e pré-cultural, selecionasse as opções que mais a interessassem, que mais a atraíssem, e fosse assim compondo aos poucos sua própria pessoa.

É isto que gera o entusiasmo pelo método Waldorf. A escola é vista por estes entusiastas como uma mistura de laboratório, de fermento, de maquete, e de bola de cristal. Nos laboratórios Waldorf, estaríamos forjando um novo homem – um homem experimental, que não fosse mais esse autômato treinado para entrar no mercado de trabalho e reproduzir a ladainha interminável da dominação capitalista. Esse novo homem, jogado na sociedade, agirá de modo diferenciado, pois não aceitará facilmente as imposições que o mercado irá colocar sobre sua vontade. Será, por isso, o fermento de uma nova era, um elemento estranho, impalatável pelo sistema, e potencialmente revolucionário. A escola, seu ambiente de infância e de adolescência, será para ele, ao longo de toda a vida, uma espécie de maquete do mundo que vai chegar. Ao invés de correr atrás de um ideal abstrato, ele terá um objeto de comparação sempre disponível em sua memória intelectual e afetiva. É para Waldorf que ele irá querer voltar, e é para Waldorf que ele irá sugerir que a humanidade toda caminhe. Sendo assim, o ambiente escolar produziria uma espécie de antevisão do futuro. É assim que a sociedade deveria ser, e é assim que ela será, caso o modelo de educação de Waldorf seja suficientemente generalizado.

Curiosamente, a matriz ideológica que está por trás do método não tem nada de “socialista” ou “comunitarista”. Pelo contrário. O que vemos aí é o individualismo mais exacerbado que se possa conceber. Todo o esforço da escola vai no sentido de liberar forças que saem da subjetividade (eu quase diria – da “interioridade imaculada”) de cada uma das crianças, e dar a essas forças um poder quase absoluto, incontrastado. Tudo que um “facilitador” pode fazer, nesse contexto, é apresentar estímulos, e esperar que esses estímulos surtam algum efeito na subjetividade soberana dos petizes. O indivíduo, dentro da Waldorf, é tudo. A comunidade só surge, ali, como uma espécie de epifenômeno, gerado a partir de pequenas almas trancadas sobre si mesmas.

Olhem, agora, que coisa interessante. Se vocês vêm aí a mesma matriz ideológica do “neoliberalismo”, que os entusiastas da Waldorf tanto odeiam, vocês acertaram. A origem é exatamente a mesma. Ora, por que então as mesmíssimas pessoas que sentem engulhos ao ouvir a palavra “liberalismo” sentem esse entusiasmo todo por uma escola que leva ao paroxismo os princípios liberais? O motivo é simples. Experiências como a escola Waldorf mostram à luz do dia as limitações do liberalismo clássico. Por trás desse culto à liberdade individual, o que existe é um fordismo de fato, no qual o indivíduo é chamado a decidir se aceita se transformar em parte de um mecanismo impessoal, ou se prefere ir para o olho da rua. Exatamente por isso, experiências como a do método Waldorf são vistas como potencialmente revolucionárias. Elas desafiam o sistema capitalista naquilo que ele tem de mais central e, por isso mesmo, de mais oculto – a anulação completa da individualidade sob o peso do capital. As operadoras de telemarketing não me deixariam passar aqui por mentiroso.

É por isso que o método Waldorf entusiasma tanto. Se quiserem pegar, peguem. Se não quiserem, larguem. Mas é preciso ter bem diante dos olhos qual é a motivação de fundo de nossas escolhas. A motivação é essa, e não tem absolutamente nada a ver com possíveis vantagens comparativas de um método sobre outro. Isso é conversa para boi dormir. Cantilena ideológica. O método Waldorf conta com o entusiasmo da esquerda porque propicia o surgimento de um núcleo antissistêmico no jardim da infância de nossos filhos. É disso que se trata.

Tenho um amigo que foi educado pelo sistema Waldorf desde a infância. É inglês, e veio para o Brasil quando já tinha mais de trinta anos de idade. Não tem más lembranças da escola. Pelo contrário. Mas não matricula os próprios filhos na Waldorf. O motivo é simples. “Quando eu fui para a faculdade”, ele costuma dizer, “estava nitidamente defasado em relação a meus colegas de classe em relação a uma série de coisas. Eles sabiam muito mais matemática, física, história e geografia do que eu. Além disso, tive que me adaptar ao trabalho sob pressão, que eu simplesmente desconhecia. Consegui superar tudo isso. Não foi nenhuma tragédia. Mas teve um custo psicológico grande, que eu não quero impor aos meus filhos. Você poderia dizer que eu era mais criativo, ou tinha mais iniciativa que meus colegas, mas eu sinceramente nunca observei isso. Havia, enfim, uma memória agradável da escola em que eu fora criado convivendo com um passivo educacional que eu tive que a duras penas resgatar.”

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