Os banqueiros e a noite em Jaçanã 11/05/2010 – 23:30 Mauro Santayana

sugado do jb online/coisas da política

do meu ídolo Mauro Santayana

http://www.jblog.com.br/politica.php?itemid=21130#nucleus_cf


Como já descobriram os estudiosos há, acima dos partidos e das instituições políticas, o que se convencionou chamar de poderes de facto. Esses poderes de fato sempre se fizeram com o dinheiro. Nem mesmo a democracia grega deles escapou: os ricos, que participavam do financiamento do Estado com seus recursos (o sistema era chamado litúrgico, termo de significação política que, como tantos outros, foram apropriados pela Igreja), não só contavam com o reconhecimento público: exerciam diretamente o poder.

A tautologia do discurso histórico político é o do confronto entre os ricos, com seu poder, muitas vezes tirânico, e a resistência dos pobres. O que era muito claro na Antiguidade, sobretudo na República Romana, cujo sistema, conforme Tito Lívio, se fundava na tensão permanente entre a aristocracia e a plebe, é hoje mais dissimulado, em consequência da influência da cultura – e dos meios de comunicação.

Há dias, em encontro realizado em Porto Alegre, alguns participantes pleitearam a presença de empresários na ação política direta. Há, no entanto, os que têm direito a reclamar da excessiva presença de homens de negócios – e seus prepostos diretos – nas casas parlamentares. Lula declarou recentemente que os governos, em geral, se elegem com os votos dos pobres, mas atuam em benefício dos ricos. Ou, conforme constatação clássica, o poder é como o violino: pega-se com a esquerda, mas se toca com a direita.

Ainda que a vida dos trabalhadores tenha melhorado consideravelmente nos últimos cem anos (e, desses cem, faça-se justiça, de forma notável no Brasil dos últimos oito), o sistema expeliu da vida econômica milhões de seres humanos, que se transformaram em novos miseráveis. Calcula-se que só na cidade de São Paulo haja 20 mil moradores de rua. Vinte mil, menos seis – que foram assassinados em Jaçanã na madrugada de ontem. Eles não têm para quem apelar. Não recebem bolsas de alimentação do Estado, não se incluem no Programa Minha Casa, Minha Vida, e é certo que não poderão votar – privilégio de que serão assistidos alguns recolhidos ao sistema penitenciário brasileiro. São como cães. Vivem nas ruas, como cães. Como cães, devem servir-se das sobras, a cada dia mais suspeitas. Como cães são abatidos, como os seis de Jaçanã – a outrora romântica Jaçanã de Adoniran Barbosa e o seu Trem das onze.

Ao mesmo tempo em que o Estado terá que se desfazer desses seis corpos e explicar por que, um dia antes, soldados da Polícia Militar espancaram até a morte um motoqueiro, na presença da própria mãe, na porta da própria casa, os maiores bancos brasileiros registram novo recorde em seus lucros. Esses lucros tendem a crescer em curto prazo, com o aumento da taxa de juros, decidida recentemente pelo Banco Central. Todos estão ganhando na economia brasileira – menos os 20 mil párias de São Paulo e os milhões de párias do resto do Brasil. Por tudo isso é pertinente discutir o papel do Banco Central na vida brasileira. Os bancos centrais do mundo – mesmo os descentralizados que constituem o Federal Reserve norte-americano – são, na realidade, centrais de bancos. Eles existem para assegurar a transferência de recursos do trabalho para a voraz especulação financeira.

Os europeus vivem nova crise econômica assustadora, e os Estados Unidos não saíram da enrascada de 2008. Todos – até os ratos que passeiam pelos esgotos de Wall Street – sabem que a crise é resultado das falcatruas dos banqueiros, com a cumplicidade dos órgãos reguladores. Aqui, no Brasil, se fosse possível auditar os últimos 40 anos, saberíamos quanto o contribuinte foi roubado nas falências dos bancos, sem falar no famoso Proer.

Se José Serra está sendo sincero, ou não, é difícil saber. Mas quando o candidato, provocado por uma colunista muito próxima do setor financeiro, coloca em dúvida a infalibidade do Banco Central, as pessoas mais bem informadas concordam. É certo que, embora não a tenha ainda de jure, o Banco Central goza de plena autonomia de facto. O que é coerente: a instituição é instrumento daqueles que detêm os poderes de facto em nosso Estado aparentemente republicano, e fazem as leis. É hora de submetê-lo aos interesses do povo, nele incluído os que dormem – e morrem – sob os viadutos de São Paulo.

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