juros: aumentar ou diminuir, eis a questão

sugado do palpiteiro no nassif

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/dilma-no-estadao#more

Gunter Zibell

“não sei em quem votar!”

Se fosse possível crer que Serra teria mais condições que Dilma de fazer algo quanto a câmbio e juros, ajudaria na resposta. O discurso dele diz que sim, mas é sincero?

A decisão de voto deverá passar por outros fatores, porque ele não tem tais condições.

Em sua base de apoio há tanto os que desejam a valorização cambial como os que não desejam, há tanto os que desejam a atual política de juros como os que não. O mesmo é válido para os apoiadores de Dilma, então há em Serra apenas uma tentativa de diferenciação, que como em tantas outras coisas pode ser apenas contraditória e eleitoreira. No geral o discurso de Dilma é mais consistente.

Não é fácil reduzir juros se houver preocupação com a inflação, e o principal mote de Serra ainda é o Plano Real. Não é possível reduzir os juros sem mexer na caderneta de poupança (pensou-se isso no final de 2009), e a taxa mínima da poupança é 6,5% aa (quando a TR é arbitrada em zero.) A taxa líquida atual de juros é 10,75 x 0,85 = 9,14% aa. Há pouco espaço, portanto. Além disso, a taxa nominal da caderneta de poupança já seria atrativa por si só para capitais estrangeiros (não teria efeito sobre o câmbio.)

O discurso da redução de juros se contradiz com aquele que prega maior taxa de poupança interna para o país investir mais. Essa contradição não nos aparece geralmente porque as críticas nunca são feitas simultaneamente, mas como aumentar a poupança doméstica reduzindo juros?

Aumentar taxa de juros pode ajudar a impedir uma desvalorização, ou um ataque especulativo, mas o contrário não é verdadeiro. O Brasil já reduziu muito as taxas de juros nos últimos 7 anos, passando de 10% reais aa para cerca de 4%. E o Real continuou valorizando. Um exemplo internacional : as taxas de juros no Japão são próximas de zero há uma década, nem por isso o Iene desvaloriza; as taxas de juros na China são positivas (as maiores depois das brasileiras) e o Iuane não valoriza. Juros devem baixar por outros motivos, mas esqueça-se disso como instrumento para desvalorização.

Há uma crítica recorrente ao Bacen, e indiretamente ao governo, em função das taxas de juros. É como se o governo fosse propositadamente malvado em relação a quem toma emprestado, ou como se o governo estivesse comprometido com rentistas. Ou o governo fosse simplesmente incompetente e o Bacen um ente desconectado da realidade. Essa crítica, por parte dos governistas, é contraditória, pois o governo é o mesmo que é elogiado em várias outras frentes, inclusive por haver alterado o patamar do governo anterior de 10% a 15% de juros reais ao ano. Ora, é mais razoável supor que o governo tenha apenas uma cabeça e esteja apenas sendo sério no que faz, que não há condições objetivas para reduzir os juros sem ficar exposto a uma campanha midiática assustando com a volta da inflação. Do lado da oposição a crítica é apenas oportunista, pois basta lembrar como foi a administração da política monetária durante o governo PSDB. Aceitemos, no entanto, que o governo é fraco em comunicação.

Do modo como as coisas estão postas seria necessário aceitar maior inflação para reduzir a taxa real de juros – ou reduzir a remuneração da caderneta de poupança. Serra não terá maior governabilidade do que Dilma para nenhuma ação nesse sentido, ficaria ainda mais exposto a ataques pela mídia, já que o apoio desta é condicionado ao PSDB/DEM manterem o ideário neoliberal em pauta. Seria preciso haver mais sinais de desaquecimento para justificar a redução de juros, e o superávit nominal resultante aí sim poderia ser usado para investimentos.

Os instrumentos de política monetária e suas limitações são de conhecimento de todos, governo e oposição. É apenas ilusão achar que uma pessoa poderia fazer diferente. Fosse fácil o governo atual o faria, mas é prudente e consciente. Serra não tem nenhuma fórmula mágica para baixar juros em uma economia simultaneamente com baixo desemprego e baixa taxa de investimentos. Um voluntarismo nesse sentido pode ter resultados imprevisíveis.

Fala-se muito em desvalorizar, mas há as conseqüências.

Se a desvalorização for induzida por compra de divisas surgirá o déficit correspondente à diferença entre juros internos e externos, aplicada ao montante crescente de reservas. Esse custo também já é muito criticado hoje, só que, como em outras coisas, propositadamente a crítica não é simultânea. Vê-se críticas à taxa de câmbio, vê-se crítica ao acúmulo de reservas, mas não se encontra um artigo que reconheça que para desvalorizar o Real é necessário aumentar as reservas. A China aceita esse ônus.

Uma desvalorização traria o efeito benéfico de favorecer a indústria, indiretamente e no médio prazo os trabalhadores, pois eles teriam melhor oferta de empregos. Mas afeta toda a estrutura de preços, haveria uma grande transferência (concentradora) de renda dos consumidores assalariados para o setor produtivo. Inclusive o maior favorecido seria o setor agroexportador ou extrativista que, como sabemos, não precisa de maior competitividade. Afinal, a crítica hoje não é a de que os bens primários cresceram na pauta de exportações? A proposta de Serra é simplista demais, remete a um modelo de substituição de importações, que só teria real benefício para o mercado de trabalho na presença de desemprego (mas já há críticas ao baixo desemprego…), e favorece dramaticamente o setor agrário, seu atual nicho eleitoral. Para evitar isso seria cabível pensar em um imposto de exportações, mas Serra nunca conseguiria isso no Congresso sendo apoiado pelo DEM.

Mais consistente é apostar em um gradualismo da desvalorização cambial, concomitante a uma reforma tributária que desonerasse ao máximo o setor industrial, que tributasse um pouco mais os setores onde o Brasil é muito produtivo, acompanhado de investimentos em infraestrutura e logística que possam reduzir efetivamente os custos da produção industrial.

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