A “EPIDEMIA” DO CRACK

sugado http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed721_o_cultivo_cientifico_da_ignorancia

 

Quarta-feira, 21 de Novembro de 2012   |   ISSN 1519-7670 – Ano 17 – nº 721

A “EPIDEMIA” DO CRACK

O cultivo científico da ignorância

Por Sylvia Debossan Moretzsohn em 20/11/2012 na edição 721

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O jornalista vive mergulhado em sua rotina, ouvindo as fontes autorizadas de sempre, treinadas para falar o que se encaixa nas concepções prévias das pautas cotidianas. Está tão acostumado que passa a agir automaticamente, como se não fosse capaz de pensar.

De repente, se dá conta: não, as coisas não são tão simples assim.

E agora?

O depoimento da repórter Laura Capriglione, da Folha de S.Paulo (transcrito ao final deste artigo), num debate sobre a repressão aos usuários de crack, merece atenção especial pela rara coragem da autocrítica, muito reveladora sobre a formação – e as deformações – do jornalista e sobre as possibilidades de ruptura do círculo vicioso que se forma entre repórteres e fontes.

Antes de chegarmos a ele, tentemos apresentar as bases que sustentam esse questionamento.

A demonização das drogas

A enxurrada de reportagens sobre o uso do crack, que nos últimos anos volta e meia ganham capa e suítes nos principais jornais do país, converge para o sentido comum de aceitação e reverberação do discurso das autoridades: trata-se de uma epidemia que se espalha pelo país, que é extremamente letal e por isso exige intervenção imediata e articulada da polícia e da medicina, com a combinação de dois tipos de violência: a repressão a quem consome a droga nas ruas e a internação compulsória dos usuários.

O discurso terrorista contra o uso de drogas – certas drogas, que se alternam conforme a conjuntura – é recorrente ao longo da história e obedece a interesses políticos muito específicos, como a socióloga Rosa del Olmo apontou num precioso livrinho lançado no Brasil em 1990 (A face oculta da droga, Editora Revan). Não se trata de negar que as drogas fazem mal – evidentemente que sim, embora nunca devamos esquecer que as guerras do ópio, no século 19, foram travadas justamente em defesa do comércio dessas substâncias, considerando os interesses em jogo.

Drogas fazem mal, drogas ilícitas mais ainda, tendo em vista seus danos colaterais de corrupção e violência, tantas vezes fatal. O trabalho alienado faz um mal enorme, e disso pouca gente se lembra, embora estejamos todos voltados para a busca da felicidade e estimulados, permanentemente através da mídia, aos apelos para uma “mudança de estilo de vida” que, estranhamente, ignora os constrangimentos estruturais que nos levam a viver como vivemos, e às tentativas tantas vezes frustradas de escapar da infelicidade pelos mais diversos meios.

Demonizar as drogas é o melhor caminho para sedimentar a ignorância confortavelmente instalada na sala de estar. “Não ofenda, não contorne, não surpreenda o senso comum: enquanto as pessoas acreditarem que as drogas são um mal em si, mantém-se a zona de segurança”, escreveu neste Observatório o professor Luis Fernando Tófoli (ver “A imprensa entorpecida“), ao criticar uma edição do Jornal Nacional em que o âncora-símbolo da emissora arrematava uma reportagem sobre o crack e a internação compulsória dos usuários com o comentário de que “todo mundo diz que crack basta experimentar uma vez só e a pessoa fica viciada”:

“Mesmo com as fantasias apocalíptico-epidêmicas associadas ao crack, ainda assim é necessário corrigir a informação do jornalista e alertar ao leitor que ‘todo mundo’, nesse caso específico, está errado. Não existe uso de droga sem usuário e sem contexto. Por mais que uma substância possa ter, por sua farmacologia, um maior ou menor potencial para induzir dependência, não existem drogas com propriedades ‘mágicas’. É a combinação entre a substância, o momento de vida da pessoa e o contexto de consumo que causam ou impedem a adição. Nenhuma droga vicia por si e nem instantemente, e isso vale tanto para o crack e a heroína quanto para uma das drogas de maior potencial de dependência, o tabaco.”

As próprias reportagens deveriam sugerir alguma dúvida quanto a essa mistificação. Pois não é raro lermos sobre pessoas que “venceram o vício” ou que foram resgatadas das ruas após anos usando essa droga (ver aquie aqui). Além do mais, se o crack vicia ao primeiro contato e condena o indivíduo à morte em pouco tempo – quanto tempo, nunca se diz –, deveríamos estar assistindo a uma sucessão de cadáveres sendo carregados diariamente em carroças – mais ou menos como no tempo da gripe espanhola –, dada a quantidade de maltrapilhos aglomerados em determinadas regiões das grandes cidades que passam os dias se drogando.

Pelo contrário, o recente episódio de repressão no Parque União, uma das favelas da Maré, à beira da Av. Brasil, em 9/11 (ver aqui), mostrou gente muito ágil e lúcida, capaz de serpentear entre o tráfego intenso da via expressa para fugir da “acolhida” das autoridades. A corrida alucinada deveria sugerir alguma indagação sobre o motivo por que essas pessoas rejeitam tão desesperadamente a hipótese de ir para algum abrigo.

A construção do inimigo

Em uma passagem de A sociedade excludente, Jock Young sintetiza a funcionalidade do processo de demonização do “outro”, que recorrentemente se associa ao tema-tabu dos entorpecentes:

“A demonização é importante porque permite que os problemas da sociedade sejam colocados nos ombros dos ‘outros’, em geral percebidos como situados na ‘margem’ da sociedade. Ocorre aqui uma inversão costumeira da realidade causal: em vez de reconhecer que temos problemas na sociedade por causa do núcleo básico de contradições na ordem social, afirma-se que todos os problemas da sociedade são devidos aos próprios problemas. Basta livrar-se dos problemas e a sociedade estará,ipso facto, livre deles! Assim, em vez de sugerir, por exemplo, que grande parte do uso deletério de alto risco de drogas é causado por problemas de desigualdade e exclusão, sugere-se que, se nos livramos deste uso de drogas (diga não’, trancafiem os traficantes), não teremos mais nenhum problema.”

A demonização das drogas, e desta droga em particular – que é mais simples porque seus viciados estão mais expostos, visíveis e identificáveis pela sua degradação física –, facilita a articulação do discurso clássico da repressão violenta a um discurso supostamente científico que legitima essa violência ao dizer que não há saída senão a internação compulsória. No domingo (18/11), O Globo repete a ideia ao reproduzir declaração do secretário de Segurança do Rio sobre essa gente que “perdeu a condição cidadã. Sem discernimento, vive miseravelmente entre ratos e baratas, abandonado e em situação deplorável. Basta olhar para perceber que ele precisa de acolhimento”.

Se não soubéssemos do que se tratava, poderíamos até imaginar que o secretário descrevia algum mendigo, esse personagem tão antigo quanto a própria história das cidades, desde a Idade Média.

O risco da adoção do discurso da internação compulsória – e nem vamos aqui discutir a ausência de estrutura para abrigar e tratar tanta gente – é precisamente este: sugere que o foco é um universo restrito de indivíduos e não demora a alcançar todos os que, por qualquer motivo, são incômodos ao convívio social. É o processo típico de construção do inimigo, que o jurista argentino Raúl Zaffaroni analisou em O inimigo no direito penal, apontando sua mais remota origem no conceito de hostis (o “inimigo” ou o “estranho”) do direito romano, que nunca desapareceu da realidade operativa do poder punitivo nem da teoria jurídico-penal: atravessa as épocas, “de cara limpa ou com mil máscaras”, e abrange desde o prisioneiro escravizado da Antiguidade até o imigrante ilegal – e potencialmente “terrorista” – dos dias de hoje, o traficante ou o drogado que vive em bandos. O processo é sempre o mesmo: retirar-lhes a condição de pessoas e classificá-los como entes perigosos ou daninhos para apresentá-los como inimigos da sociedade, de modo que a eles não se apliquem as garantias comuns aos demais cidadãos.

Zaffaroni contesta o argumento de que esse hostis contemporâneo possa ser submetido à contenção “apenas na estrita medida da necessidade” porque “a estrita medida da necessidade é a estrita medida de algo que não tem limites, uma vez que esses limites são estabelecidos por quem exerce o poder”:

“Como ninguém pode prever exatamente o que algum de nós – nem sequer nós mesmos – fará no futuro, a incerteza do futuro mantém aberto o juízo de periculosidade até o momento em que quem decide quem é o inimigo deixa de considerá-lo como tal. Com isso, o grau de periculosidade do inimigo – e, portanto, da necessidade de contenção – dependerá sempre do juízo subjetivo do individualizador, que não é outro senão o de quem exerce o poder.”

Pensemos, só por hipótese, nos interesses de quem detém o poder e precisa limpar uma determinada região para “revitalizá-la” através de milionários projetos imobiliários.

De repente, a luz

No início do ano, o governo de São Paulo deflagrou uma espetacular operação de repressão à cracolândia instalada na região da Luz. Orientava-se pelo princípio de “dor e sofrimento” – quem sabe inspirado no “choque e pavor” da última guerra de George W. Bush –, que impediria os usuários de se fixarem em algum ponto da cidade, cortaria o fornecimento da droga e, ao provocar a síndrome da abstinência, os levaria “logicamente” a buscar o serviço de saúde.

No debate sobre “Mídia, Drogas e HIV“ promovido pelo Centro de Convivência É de Lei na quarta-feira (14/9), a jornalista Laura Capriglione relatou que foi durante a cobertura dessa operação que ela e outros colegas, antes acostumados ao conforto da apuração por telefone e ao discurso médico aparentemente coerente, se viram confrontados com uma realidade que desconheciam. Presenciaram a violência, começaram a andar junto com as pessoas obrigadas a circular, conversaram com elas e aos poucos foram desconstruindo a imagem preconcebida do usuário de crack como alguém desprovido de inteligência e capacidade de discernimento e vontade própria.

A rigor, não fizeram nada diferente do que deveriam fazer como repórteres: estar no local dos acontecimentos. Em outros tempos, era comum repórteres saírem às ruas sem pauta definida, para descobrirem coisas sobre o cotidiano da cidade. No caso da cracolândia, tão flagrantemente exposta há tanto tempo, o que os teria impedido de se aproximar daquela gente?

Talvez o preconceito, que Laura citou recorrentemente em seu depoimento. A facilidade de aceitação acrítica do discurso da autoridade – mais impositivo porque aparentemente científico – e a naturalização do viciado como uma não-pessoa, um “nóia”, um zumbi, que eventualmente poderia se tornar perigoso, como nas ocasiões em que ameaçavam os jornalistas e apedrejavam os carros de imprensa.

“Quantas vezes a gente viu aquela cena do carro da imprensa, do carro da televisão, sendo apedrejado pelos craqueiros violentíssimos? A gente viu essa cena um milhão de vezes, um zilhão de vezes… mas ninguém parou pra se perguntar por que é que aquelas pessoas apedrejavam os carros da imprensa. A maior parte apedrejava os carros da imprensa pelo único e acho que legítimo motivo que essas pessoas têm direito à própria imagem, coisa que não passava pela cabeça de alguém que julgava os caras desumanos demais.”

(Bem a propósito, em junho de 2011 o tema do direito à imagem chegou a ser discutido porque a Folha publicou na capa uma sequência de fotos de um homem grisalho e bem vestido, usando a droga e depois se afastando do local. “A gravata na cracolândia” não correspondia ao estereótipo do viciado em crack. Na crítica em sua coluna semanal, a ombudsman Suzana Singer rejeitou o argumento de que “sempre fizemos assim” com pessoas que se drogavam publicamente, o que apenas reiterava a falta de sensibilidade da redação no trato desse tema. Porém, como comentei aqui à época (ver “Alguém como nós na Cracolândia“), a cena só chamou a atenção porque ali estava exposto “alguém como nós”. O direito à imagem dos marginalizados nunca foi motivo de preocupação).

O monopólio da fala

“Quem, durante muito tempo, teve o monopólio da fala sobre os craqueiros foi exatamente a turma dos médicos, a turma dos psiquiatras, a turma das clínicas”, disse Laura Capriglione, apontando a articulação de interesses: “a maior parte dessas pessoas são também donas de clínicas, donas de entidades e são contratadas pelo poder público, são entidades que têm clínicas, convênios com a Secretaria da Saúde”. E este, segundo ela, era “um pequeno detalhe que passava totalmente despercebido da imprensa, que entrevistava médicos que o tempo inteiro estavam disponíveis para falar sobre os efeitos devastadores do crack na experiência de um dependente químico”.

Essa disponibilidade permanente é parte da estratégia de construção de um consenso no qual o repórter entra como um autômato, alguém a simplesmente reproduzir o discurso da fonte: “Se você ligar para eles à meia-noite e meia eles atendem o telefone e falam, olha, os efeitos são devastadores, e fazem aquela cara: de-vas-ta-dores, e tudo bem, e a gente escreve, devastadores…”.

Por que o repórter não é capaz de questionar? Talvez porque seus preconceitos estejam tão arraigados que bloqueiem a perspectiva da dúvida. Mas nada justifica a falta de percepção da solidariedade de interesses entre certas fontes e as autoridades do Estado.

O recurso a fontes alternativas

Laura reconhece que estava, como a maioria dos colegas, “contaminada por esse discurso médico”, mas ao mesmo tempo argumenta que a contrapartida custa a aparecer. O que é uma forma de atribuir às fontes a responsabilidade pelo sentido do noticiário, como se tudo se resumisse a um problema de “falta de comunicação” ou de preparo adequado para lidar com a imprensa.

Fontes alternativas, entretanto, não faltam. No caso, a Escola Nacional de Saúde Pública, da Fiocruz, é uma delas, muito bem qualificada e estruturada, responsável, aliás, pela revista que trouxe a síntese do debate de que Laura participou (ver aqui).

O problema talvez esteja na própria formação dos jornalistas, acostumados ao reino das aparências e a reproduzir o senso comum que fantasia soluções simples para questões complexas.

Mas a boa formação é apenas o começo. Porque a melhor formação do mundo é impotente diante de determinada orientação editorial. E, mesmo que a orientação editorial seja crítica, será sempre preciso levar em conta os preconceitos do público, especialmente no caso de estigmas como o do consumo de drogas. Quebrá-los é tão necessário quanto difícil, porque a ignorância é sempre mais confortável: a simplificação maniqueísta é apaziguadora, enquanto a dúvida nos perturba e nos obriga a um esforço incômodo de reflexão.

***

Transcrição do depoimento da jornalista Laura Capriglione no debate promovido pelo Centro de Convivência É de Lei sobre “Mídia, Drogas e HIV” (14/9/2012)

Eu queria agradecer o convite e a oportunidade de estar aqui com vocês. Cabe a mim falar sobre um lado delicado dessa história toda que é o lado da cobertura da imprensa. Eu digo que é um lado delicado porque a imprensa, se por um lado ela joga luzes, ela também pode muito bem, e com a melhor das intenções, reforçar o maior dos preconceitos. (…) Essa cobertura desse evento [a operação na cracolândia] foi pra nós (…) uma experiência extremamente reveladora do que é o universo do crack. Digo isso porque não sei se vocês se lembram quando o crack apareceu, há 20 anos, uma das primeiras matérias que se veiculou foi na Veja, do Elio Gaspari, muito bem escrita como sempre, e a matéria dele começava com um tuiiiimmm, e com esse “tuiiiimmm” a pessoa tava morta, tava frita, “tuiiiimmm” era o suposto “tuiiiimmm” que a droga deflagrava nos sistemas neuronais e aí vinha um linguajar supostamente científico pra dizer exatamente aquilo que o meu colega da mesa mencionou, pra construir a ideia de uma droga que tinha alguns efeitos devastadores, aliás a palavra devastador nunca foi tão utilizada quanto na cobertura do crack, pra dizer o mínimo se diz que o crack é uma experiência devastadora. Mas ele faz muito mais que isso, ele queima os neurônios – tô citando coisas que apareceram na imprensa – ele queima os neurônios, uma tragada vicia inevitavelmente, ele destrói a família, destrói os laços, ele enfim desumaniza a pessoa que deixa de ser um cidadão como nós e passa a ser uma pessoa que precisa de uma intervenção total, e essa intervenção pode ser policial, por que não?, mas pode ser uma internação forçada, compulsória, como a gente ouviu de novo ser mencionado agora na cobertura da cracolândia, essa foi uma das vias que mais acolhimento tiveram… qual a saída? Internação compulsória, isso foi defendido por autoridades, governo do estado…

Pra nós, eu que trabalho na Folha, que é aqui no Centro, quase mergulhada na cracolândia, a gente tem cracolândia de um lado, de outro, na frente e atrás, e pra nós, felizmente ou infelizmente, essa proximidade, quando a gente ouvia as balas, ouvia os tiros, a redação saía, foi muito bom porque a gente tava ali do lado, e a Folha conseguiu flagrar os tiros de bala de borracha, as bombas de efeito moral, isso virou matéria, virou TV Folha, virou um monte de coisa. (…) Isso foi uma experiência muito rica pros profissionais que estavam ali envolvidos. (…) “os craqueiros são pessoas sem o menor discernimento, estão com o cérebro queimado, a droga destruiu qualquer traço de humanidade, generosidade, inteligência”, quem durante muito tempo teve o monopólio da fala sobre os craqueiros foi exatamente a turma dos médicos, a turma dos psiquiatras, a turma das clínicas, essa turma que acabou tendo o monopólio e hoje a gente pode, as pessoas começam a perceber cada vez mais, esse discurso longe de ser científico é um discurso interessado, porque a maior parte dessas pessoas são também donas de clínicas, donas de entidades e são contratadas pelo poder público, são entidades que têm clínicas, convênios com a secretaria da saúde, enfim… só que isso era um pequeno detalhe que passava totalmente despercebido da imprensa, que entrevistava médicos que o tempo inteiro estavam disponíveis pra falar sobre os efeitos devastadores do crack na experiência de um dependente químico.

O que essa experiência da invasão, da disputa do território da cracolândia, fez foi obrigar os jornalistas, que ficaram muito tempo, quase vinte anos, no conforto dessa conversa por telefone na maior parte das vezes, longe da cracolândia, e eu queria só lembrar quantas vezes a gente viu notícias nos jornais, particularmente na televisão, de repórteres muito bem intencionados, por isso eu digo que o problema não foi falta de boas intenções, o problema é um pouquinho maior, tem a ver com preconceito e uma série de coisas, quantas vezes a gente viu aquela cena do carro da imprensa, do carro da televisão, sendo apedrejado pelos craqueiros violentíssimos? A gente viu essa cena um milhão de vezes, um zilhão de vezes, com a melhor das boas intenções. Mas ninguém parou pra se perguntar, só que hoje a gente para pra se perguntar, por isso eu digo que foi um momento que a gente teve de chegar perto do problema, ninguém parou pra se perguntar por que é que aquelas pessoas apedrejavam os carros da imprensa. A maior parte apedrejava os carros da imprensa pelo único e acho que legítimo motivo que essas pessoas têm direito à própria imagem, tem direito a preservar a própria imagem, coisa que não passava pela cabeça de alguém que julgava os caras desumanos demais pra defender a própria imagem, que essas pessoas tinham esse direito. Por que eles tinham de ser expostos, e isso não é uma prerrogativa, diga-se de passagem, de usuários de crack, qualquer população que vive nessas situações limites são pessoas que ficam extremamente constrangidas com essa exposição na mídia. (…) mas essa imagem dos carros de imprensa sendo apedrejados pelos craqueiros era a mão na luva, era perfeito pra provar a tese que os craqueiros eram não-pessoas, eram animais, pior que animais, que a droga tinha desumanizado esses caras e que eles não mereciam nenhuma consideração a não ser uma intervenção total.

Os jornalistas foram pra cracolândia (…), e tomaram um choque com o que viram lá e com as situações que acabaram presenciando. Eu queria dizer que, entre outras coisas, como a gente tava naquela ideia de que alguma coisa precisa ser feita pra salvar essas pessoas de si mesmas, dessa droga que aliena as pessoas de si mesmas, logo no começo parecia que tudo podia, a secretária [dizia que] com gentileza não dá pra tratar, e ela não tava falando sozinha, ela tava dialogando com uma ideia que a sociedade tinha dessa população. E vocês podem ter certeza que teve um apoio enorme a essa intervenção da secretária, e dentro da Folha.com tem um espaço de comentários (…) e era esse mesmo, tira todo mundo, limpa a rua.

Foi muito importante a presença da Defensoria Pública com aquele panfletinho simplíssimo, que falava de direitos, o cara não tem direito de andar na rua, não tem o direito de ficar parado, de sentar na calçada?, parecia uma coisa normal que ele não tivesse… pra se ver o grau de preconceito que tinha, as premissas com que a gente foi pra rua eram as mais nefastas possíveis. Bom, aí teve jornalista da Folha que saiu andando com os meninos pra medir quanto que esses caras tinham que andar por dia por conta dessas abordagens da polícia e desse impedimento da polícia de que essas pessoas ao menos sentassem. Então se começou a andar junto com as pessoas, começou a conversar com as pessoas, e o que a gente pode ver foi exatamente a desconstrução desses mitos que cercavam os usuários de crack.

Eu tenho certeza que a gente é melhor hoje do que era antes, por incrível que pareça, se essa cobertura, se essa guerra insana que a polícia, que o governo do estado, que a prefeitura moveram, insana mesmo porque a gente vê que os efeitos disso foram simplesmente uma espécie de castigo a essa população que já é tão castigada pela vida, mas um segundo efeito foi aproximar a gente de uma realidade que a gente ignorava solenemente. Porque a gente tava contaminada por esse discurso médico.

Vou dar alguns exemplos, são coisas bestas, bobas, agora recentemente a TV Folha fez uma matéria, a Folha foi atrás de uma velhinha que tava procurando a Desirée, que tava grávida, ela virou personagem porque estava grávida e tava na cracolândia e a sogra dela queria que ela voltasse pra casa porque a Desirée tava ali naquela vida louca. A Desirée é uma das que tá presa, acusada de tráfico, e teve o filho na cadeia. Muito tempo depois, agora, ela teve o filho, ela tá na cadeia, não tá usando crack, tá linda, tá maravilhosa. Fizeram um TV Folha com a Desirée (http://www.youtube.com/watch?v=oG9fIPJCkrI) (…), ela tá com o filho e quer continuar com o filho. Quando o pessoal da TV Folha tava editando o material, veio uma menina muito legal e perguntou, Laura, por que vai sair uma matéria dessas agora, pra pegar e mostrar o quê, isso parece novela do SBT, pra que serve essa matéria?

Bom, quando a gente tava fazendo matéria sobre as mães do crack eu fui até os conselhos tutelares, a pauta foi encaminhada com uma única razão, coitadinhas das crianças que são geradas e nascem numa situação como essa. O poder público tem que tirar essas crianças das mães, o objetivo da pauta era esse. Tem que tirar essas crianças dessa situação absurda e tal. Fui lá no conselho tutelar, qual a posição do conselho tutelar? Tira, tira já, tira já! A posição do conselho tutelar daqui, da Praça da República, é tirar já as crianças dessa situação de risco que as crianças não tem nada a ver com a vida da mãe, não sei que. Eu vou falar francamente que achei que não era tão louco isso, não era tão louca essa posição, que de repente podia até ser, e de repente apareceu na minha frente uma mulher dependente de crack, que não era mais dependente de crack, que tava livre, e que disse, olha, eu só saí do crack por causa do meu filho, a minha única ponte com a vida foi meu filho. Se eu perdesse naquela hora o meu filho eu provavelmente não saía nunca mais. Bom, não sei se não saía mais ou não, mas tornou muito mais difícil aquela equação, não podia ser mais simplesmente assim, a mulher tá no crack, arranca o filho dela. O caso da Desirrée, por mais que parecesse uma novela do SBT, mostrava uma outra coisa, que não era uma via de mão única, que precisa ser visto a situação particular de cada uma das mulheres, não pode ser uma norma geral, você tinha que olhar praquele ser humano, não podia ser uma norma extra tudo, que se impusesse pra supostamente salvar a criança. O quê que começou a acontecer, e é isso que eu queria dizer pra encerrar, aquilo que antes tava tudo muito claro, pra todo jornalista: o craqueiro era um bicho, o filho do craqueiro ou da craqueira tinha que ser arrancado deles, a internação compulsória a gente não gosta muito disso mas também pode mesmo ser a única saída então vamo nessa – pode ser, não: é a única saída –, a gente teve de deixar de lado isso pra começar olhar pra cada um daqueles seres humanos sofridos de uma outra maneira.

Eu acho que a gente errou muito e ainda vai errar muito também. Mas eu acho que aquela experiência da cracolândia, às vezes a gente era, junto com a Defensoria, os únicos que estavam ali, pra falar com eles, pra ouvir as reclamações deles, pra flagrar a viatura da polícia passando duas vezes em cima da cabeça dum menino que foi atropelado numa dessas abordagens (…), de fato a gente teve de começar a se relacionar com uma gente que a gente desconhecia completamente. Eu acho que as coberturas de crack tendem a melhorar, tendem a ser menos preconceituosas, mas eu queria dizer também que esse contradiscurso médico em relação a essa posição que é a favor da internação, que só com drogas pesadas… isso aí precisa melhorar muito, essa comunicação precisa melhorar muito, desse outro lado, o outro jeito de lidar com a coisa, porque de novo: os adeptos dessas medidas totais eles estão sempre disponíveis, se você ligar pra eles à meia-noite e meia eles atendem o telefone e falam, olha, os efeitos são devastadores, e fazem aquela cara: de-vas-ta-dores, e tudo bem, e a gente escreve, devastadores… é preciso que o outro discurso seja feito também, que outras experiências sejam mostradas. Por exemplo, esse vídeo aí [mostrado pela Defensoria], com esse cara aí falando, é incrível, se queimou os neurônios desse menino e ele falando desse jeito, eu tô querendo também esse negócio… (risos) eu fui numa clínica que era mantida em São Bernardo que aplica esse princípio dos doze passos e que é de um dos médicos mais disponíveis pra dar entrevista, falando que a única saída é a internação, não sei quê. Bom, aí tinha nessa clínica tratava de dependência de álcool e drogas então tinha álcool e o resto tudo era crack ali. E tava todo mundo sem nada, sem fumar, sem nada, e teve uma mesa-redonda, todo mundo falando… A vivacidade daqueles caras acabou com qualquer ideia que eu tivesse sobre esses efeitos arrasadores, o curto-circuito neuronal, pega fogo no cérebro e aquela coisa toda, acabou, eu vi que a gente precisava aprender tudo de novo sobre crack.

***

[Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007)]

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