Balanço das manifestações Uma análise da conjuntura política brasileira

 
24 de junho de 2013 11:57 PM

 

Balanço das manifestações

 

Uma análise da conjuntura política brasileira

 

As manifestações que se espalharam por centenas de cidades no país tiveram o seu ponto de partida em S. Paulo

 

Rui Costa Pimenta

 

As manifestações que se espalharam por centenas de cidades no país tiveram o seu ponto de partida em S. Paulo, com as passeatas contra o aumento da tarifa dos transportes coletivos implementado pelo prefeito Fernando Haddad, do PT, e o governador Geraldo Alckmin, do PSDB.

 

A luta pelo passe livre iniciou-se anos atrás durante do governo Kassab e vem sofrendo desde aquele momento a repressão policial. Ela teve momentos de mobilizações expressivas e outros momentos de pequenas manifestações, mas se manteve como o movimento de uma frente única de organizações políticas e reivindicativas de caráter permanente.

 

Este movimento está intimamente ligado ao movimento de luta nas universidades estaduais, em particular da USP, que ocupou a reitoria daquela universidade em duas importantes oportunidades, em 2007 e 2011.

 

Esse é, essencialmente, um movimento da juventude e um movimento dirigido contra a ditadura que a direita, ou seja, o PSDB e seus aliados impuseram no mais importante estado da federação nacional.

 

A eleição de Fernando Haddad do PT ou, mais precisamente, a derrota do PSDB  colocou em evidência a crise dessa ditadura. O PT assume o governo não como uma alternativa popular ao PSDB, mas como uma versão mais débil de governo burguês representante do regime politico antidemocrático, anti-operário e pró-imperialista, indicando o completo esgotamento dos métodos anteriores de contenção e a completa perda de autoridade da direita para governar.

 

O movimento pela redução da tarifa

 

As manifestações de 2013 foram mais um sintoma do agravamento da crise. Começaram com muito maior participação da juventude. Seu espírito de luta também estava incrementado. Nos anos anteriores, alas mais moderadas do movimento, como a própria direção do MPL, buscavam evitar qualquer manifestação mais radical e, particularmente, qualquer resistência à violência policial. Este ano, a esquerda do movimento, apoiada nos setores jovens da periferia que começaram a participar romperam estes diques de contenção e enfrentaram a repressão policial, apesar da óbvia desvantagem material. Os eventos de violência do início da manifestação, provocados diretamente pela repressão policial, foram apresentados pela imprensa capitalista, que logo saiu em defesa do governo Alckmin, como “vandalismo”  e “baderna”.

 

Esta é a mesma política empregada na USP, onde a luta política e social da juventude foi apresentada como um ato de criminalidade sem qualquer conteúdo político.

 

Essa repressão, no entanto, foi justamente um dos estímulos para o crescimento das manifestações que aumentaram a cada novo episódio da ação policial.

 

A manifestação anterior à quinta-feira, duramente reprimida, já indicava claramente a incapacidade da força repressiva do governo do PSDB de efetivamente conter o crescimento da mobilização política.

 

Estava colocado o impasse para o governo estadual. Ceder às manifestações ou reprimir. Se cedesse haveria sido derrotado pela mobilização, a qual não conseguia conter, desmoralizando completamente a campanha caluniosa do movimento criminoso, do vandalismo e da baderna. Se reprimisse, abrir-se-ia a seguinte alternativa: ou não conseguir impedir a manifestação, uma desmoralização ainda maior do que ceder sem enfrentamento, ou usar de muita violência para reprimir o movimento, o que levaria à desmoralização da repressão diante da população que estava sendo desinformada com o relato  de que se tratava de uma minoria de marginais.

 

Alckmin, de maneira absolutamente equivocada, optou pela repressão e colocou em jogo um amplo contingente de repressão com milhares de soldados da PM, a Rota, a Tropa de Choque, a Cavalaria e vários destacamentos especiais. A violência da repressão – inevitável e não acidental – que atingiu simples observadores e passantes, jornalistas, além dos manifestantes, fez com que a crise política se abrisse completamente.

 

A importância decisiva do dia 13 de junho

 

A violenta repressão do dia 13 de junho foi o momento decisivo de toda a crise. Justamente por isso, toda a imprensa capitalista silenciou sobre essa questão nos dias posteriores. A repressão não pôde ser escamoteada pela imprensa com os argumentos conservadores tradicionais de que o governo estava cumprindo a lei, que havia agido contra baderneiros e outras fantasias da propaganda reacionária.

 

O resultado da repressão foi a liquidação de toda a aparência de autoridade do governo do Estado e da sua máquina repressiva como fator político local e nacional. Todos os planos da direita estão baseados no controle do aparelho administrativo do Estado de S. Paulo, a tal ponto que dias antes da manifestação, o jornal Folha de S. Paulo havia estampado na capa a manchete absolutamente inverossímil de que Alckmin era eleitoralmente imbatível em S. Paulo e que seria capaz de derrotar até mesmo o próprio Lula.

 

O colapso, contudo, não foi apenas eleitoral. O estado de S. Paulo, o mais industrializado do país, com uma imensa classe operária e uma classe média muito politizada, é um barril de pólvora e uma ameaça constante ao regime político. Foi daqui que não apenas partiu, mas onde se desenvolveu amplamente a luta que levaria ao fim do regime militar. Aqui está também o maior quociente de organização da esquerda nacional e o mais radical. A perda de controle em um Estado como esse e, em particular, em uma metrópole de mais de 20 milhões de habitantes como é a Grande S. Paulo, coloca o regime político de conjunto em uma crise terminal.

 

O silêncio sobre estes acontecimentos decisivos e a sua repercussão política nacional provam acima de qualquer dúvida essa análise.

 

A manobra desesperada dos grandes capitalistas

 

A crise de quinta-feira levou à convocação de uma manifestação na segunda-feira que todos os que têm capacidade para analisar minimamente a situação política sabiam que seria gigantesca. A convocação da manifestação no Facebook, na própria sexta-feira, já registrava mais de 100.000 pessoas confirmadas. A manifestação estava preparada para ser a marcha fúnebre da direita em S. Paulo nacionalmente e dos seus propósitos golpistas em nível nacional, articulados na embaixada norte-americana. Os preparativos do golpe, que seria um coup de main, senão um coup d’etat, viriam a se mostrar claramente na semana seguinte à repressão.

 

A situação extremamente crítica forçou a direita a ensaiar um verdadeiro golpe, mas contra o movimento popular, que foi organizado emergencialmente de quinta a segunda-feira. A imprensa colocou em ação toda a sua capacidade de ação com as seguintes diretrizes: ocultar a repressão da quinta-feira, apoiar a manifestação que estava sendo convocada, chamar à realização de uma manifestação pacífica, ordeira e “cívica”, ou seja, o oposto do que tinha acontecido até aí. Era preciso conter a raiva e a rebelião popular contra a repressão e diluir completamente as reivindicações. Até esse ponto, não se tratava de uma manobra muito distinta daquelas que estes mesmos capitalistas da comunicação, a serviço dos grandes capitalistas em geral, havia realizado antes, durante a luta contra a ditadura, nas Diretas Já, no Fora Collor etc. Seu objetivo era diluir, conter e, finalmente, asfixiar a manifestação popular contra o governo Alckmin. Ainda mais quando as manifestações em solidariedade a esse movimento começavam a ocorrer em todo o país e até mesmo fora do país.

 

Não nos podemos esquecer de que o crescimento das manifestações poderia e, na medida em que não terminaram completamente, poderá quebrar as outras duas pernas do tripé que sustenta o regime político, ou seja, os governos estaduais do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, este último, também um baluarte do PSDB.

 

A burguesia, porém, era consciente de que essa manobra para diluir e estrangular o movimento não era suficiente. Finalmente, uma manifestação pacífica, com os mesmos objetivos e sob a mesma direção que havia atuado até então, somente serviria para transferir a luta contra a direita para o terreno eleitoral, beneficiando objetivamente o PT, e para postergar a ofensiva popular nas ruas. Era necessário fazer intervir um novo fator para destruir ou manipular os efeitos da manifestação. Era preciso efetivamente disputar a direção da mobilização em um sentido mais profundo e buscar direcionar o ponteiro da manifestação contra o governo, contra o PT e contra a esquerda em geral.

 

A burguesia em crise apela para os seus pitbulls

 

A burguesia, incapacitada de intervir contra a esquerda por meio da força policial, decidiu intervir utilizando em seu favor as forças para-policiais da extrema direita nacional.

 

Essa escolha não foi puramente intelectual, mas foi o resultado de uma situação que está em marcha há algum tempo no Brasil, ou seja, um tenaz esforço de organização de uma direita militante, fascista ou filo-fascista, para se opor à militância operária e de esquerda.

 

Esse é um fenômeno mundial cuja base fundamental é a desagregação dos partidos tradicionais da direita como resultado do imenso fracasso da política neoliberal, enfrentada pelas massas  com verdadeiras insurreições populares como na Bolívia, e soterrada pela crise capitalista. A decomposição da política implica inevitavelmente na desagregação das forças que lhe servem de base.

 

A divisão da direita tradicional levou ao surgimento de uma ala ortodoxa de direita no interior desses partidos cuja base de desenvolvimento é a propaganda de que a política neoliberal fracassou não porque encontrou pela frente a resistência das massas, mas porque não foi levada adiante de maneira radical e coerente. A direita ortodoxa não quer se dobrar à pressão popular, que não compreende muito bem, e quer restringir a política de aliança com as alas democráticas, social-democratas e frentepopulistas do regime político. São claramente nesse sentido, uma evolução da direita tradicional para posições fascistas, independentemente da sua diversidade atual. É um fenômeno paralelo ao que acontece dentro do movimento operário e popular dirigido pela esquerda burguesa e conciliadora. Há um desenvolvimento no sentido de ultrapassar as limitações dessa esquerda em um sentido oposto, revolucionário.

 

Nesse sentido, o Partido Republicano norte-americano deu lugar ao Tea-Party; dentro da UMP francesa, após o colapso de Sarkozy, a ala oficial foi derrotada pela facção de Jean-François Copé, que busca uma aliança com o partido da extrema-direita da Frente Nacional, atual Acquamarine, de Marine Le Pen; na Inglaterra, a desagregação acelerada do Partido Conservador destruído por Margareth Thatcher está levando ao crescimento da extrema-direita do UKIP, que teve um extraordinário desempenho nas eleições recentes.

 

As organizações de direita se multiplicam no mundo todo em resposta à enorme crise capitalista e são, queiram ou não, uma arma contra a classe operária mundial.

 

No Brasil, a crescente debilidade da direita no terreno eleitoral tem levado ao surgimento de vários grupos de extrema-direita que pregam contra a moderação da direita institucional e que defendem abertamente uma política de força contra a esquerda, ou seja, contra o movimento operário, que frequentemente aparece como uma defesa do golpe militar de 64.

 

No Brasil, logicamente, a extrema-direita não apenas é mais fraca do que nos países desenvolvidos, como é muito mais dependente do aparelho de Estado, em particular do aparelho repressivo. A extrema-direita é extremamente reacionária e antipopular e o Brasil, como todos os países atrasados, é um país pobre onde não há uma verdadeira base popular, nem mesmo minoritária, como nos países imperialistas, para uma política aberta de defesa dos interesses capitalistas e dos privilegiados em geral, que vivem em uma permanente guerra contra a população pobre. O que está particularmente ausente no Brasil é uma classe camponesa consolidada e uma aristocracia operária conservadora, que aparecem nos países desenvolvidos e que podemos ver no cordão bíblico dos Estados Unidos ou nas poderosas e ultraconservadoras organizações sindicais burocráticas da Inglaterra, França, Itália, Estados Unidos etc.

 

O impulso para a organização da direita nacional vem, em grande medida, de fora, é parte do processo de organização golpista dos empresários, do governo e do aparelho de inteligência do imperialismo, em especial do norte-americano. O Instituto Millenium brasileiro é um desses centros organizadores impulsionados de fora que, assim como outras organizações, a maioria com laços diretos com o imperialismo norte-americano, contribuem para a proliferação de grupos de extrema-direita no Brasil.

 

A imprensa capitalista é também um dos viveiros onde cresce essa direita. Revistas de grande circulação como a revista Veja assumiram claramente uma política de direita mais aberta, mais radical, mais próxima da extrema-direita, e com a sua retórica fascistoide, inflamam elementos de classe média desesperados, cuja grande propensão política é buscar bodes expiatórios para as suas dificuldades, causadas pelo grande capital. A tendência ao empobrecimento de setores da pequena-burguesia leva setores conservadores a se radicalizarem sem perderem o seu impulso conservador; e esta é a base social do fascismo.

 

A direita, organizada pelo aparato policial clandestino do PSDB, foi chamada à manifestação organizadamente, não para impor uma política de direita, mas para anular a política da esquerda e das lideranças do movimento. O golpe seria dar ao protesto o caráter de um não protesto, uma manifestação inócua, ecumênica, de “todos os brasileiros”, com a bandeira do Brasil, hino nacional, em resumo, uma festa, ou seja, o exato oposto de uma manifestação. Para isso, seria necessário anular a esquerda completamente. Essa necessidade levou a extrema-direita e os policiais infiltrados a usar uma política violenta de expulsar a esquerda da manifestação, não com o apoio da massa presente, mas aproveitando-se da confusão e da inconsciência dessa massa. O que foi feito e, em certa medida, com sucesso, devido fundamentalmente à covardia da esquerda pequeno-burguesa, como o Psol e o PSTU, que não quiseram enfrentar a direita violenta e que falsificaram a situação apresentando a ofensiva direitista como uma opinião popular “atrasada”, o que nada tinha de realidade.

 

A necessidade extrema, no entanto, obrigou a direita a mostrar as suas cartas antes do que seria necessário. Tornou-se conhecimento comum que o fascismo se organiza no Brasil para atacar a classe operária e que os propósitos da direita são claramente golpistas contra o PT.

 

Como se organiza um golpe de Estado

 

Toda a esquerda pequeno-burguesa, do PT ao Psol e PSTU, passando por PCdoB e outras variantes, têm feito o impossível para ocultar a ação política da direita e as tendências inerentemente golpistas da sua ação. Esta é uma das leis fundamentais da política pequeno-burguesa de conciliação de classe de frente popular: ocultar o caráter antidemocrático e violento da burguesia, anestesiando as massas com a miragem do jogo eleitoral e do reformismo medíocre, sem resultados, das negociações parlamentares.

 

A vitória eleitoral do PT não foi uma verdadeira vitória eleitoral, mas um acordo com a burguesia para a preservação do regime político após o colapso da política neoliberal de FHC. Esse acordo precário rompeu-se com a crise de 2008 e as tímidas reformas sociais do PT tornaram-se insustentáveis para a burguesia que busca desesperadamente descarregar a crise totalmente sobre os ombros das massas. O neoliberalismo privatizante do PT, embora um duro golpe contra o país e a sua classe trabalhadora, parece ao setor fundamental do capital financeiro nacional e internacional como extremamente limitado. A burguesia necessita de um ataque mais profundo contra as massas ao estilo do que está sendo feito nos países europeus para manter a sua posição dentro do pais e internacional. O que tem impedido até o momento a mudança na situação é a divisão interna da burguesia e a rebelião latente das massas.

 

O grande problema desse setor da burguesia é justamente o arremedo de regime representativo que existe no Brasil, onde, da mesma forma em que todos os países latino-americanos, com o desenvolvimento da crise capitalista, são favorecidos os partidos com maior apelo popular e reformistas em alguma medida, ou seja, os representantes da burguesia nacional contra os representantes declarados do imperialismo. Na Venezuela, Argentina, Equador, Brasil, a mera manipulação eleitoral não é suficiente para uma direita que tem cada vez menos votos e não consegue agrupar o conjunto da burguesia em torno dela como fez com a política neoliberal.

 

O resultado fundamental dessa limitação da direita diante de forças que se apresentam como mais democráticas diante do eleitorado popular não é, como esperariam os crédulos da democracia, um fortalecimento do regime parlamentar e do Estado de Direito, mas o exato oposto, o seu enfraquecimento, pois a parcela mais poderosa da burguesia busca recuperar a sua posição por meios que fogem cada vez mais ao mero jogo parlamentar e que se inclinam na direção do golpe de Estado.

 

Os atuais regimes nacionalistas, socialdemocratas e frente-populistas na América Latina são o governo da burguesia nacional, reformista e liberal que foi estabelecido com base no esgotamento da política neoliberal, que levou milhões a uma situação insustentável sem conseguir nenhum avanço na recuperação da capacidade do capitalismo funcionar. Isso quer dizer que foram uma solução forçada, de compromisso e emergencial da burguesia diante da crise, mas não a sua política fundamental.

 

A campanha contra o PT é uma típica campanha golpista. Seu centro é o velho refrão da burguesia golpista de antes de 1964. O Brasil todo, de 1950 a 1964, foi obrigado a ouvir a cantilena dos Lacerdas e outros udenistas que se erguiam como defensores da moral pública. O único objetivo dessa campanha moral era um resultado material: abrir a economia brasileira e destruir boa parte dela para satisfazer a fome de lucros dos monopólios estrangeiros. Outro tema constante da agenda política dos reacionários era a defesa da democracia contra a falta de democracia do varguismo. Esse objetivo foi realizado por meio do golpe fascista de 1964 e dispensa maiores comentários.

 

A questão do mensalão tem sido o eixo fundamental da campanha. A direita, que domina a esmagadora maioria da imprensa capitalista nacional, criou o mito de que o mensalão teria sido o maior escândalo de corrupção que o Brasil já conheceu, uma afirmação cínica a ponto de ser cômica para os que conhecem, por pouco que seja, o interior do Estado nacional.

 

O julgamento do mensalão pelo STF teve todas as características de um verdadeiro golpe de Estado: foi realizado em meio às eleições, com os juízes assumindo o papel de propagandistas políticos do partido de direita, um procedimento  escandaloso que somente tem curso entre uma parcela da população devido ao controle da imprensa e à completa capitulação do PT diante dessa manobra política. Um julgamento sem rigor que pisoteou todas as normas possíveis do direito burguês democrático, mesmo em um sentido muito superficial, é uma ação golpista e concertada.

 

O caráter golpista da ação da direita vem se avolumando e veio sair à luz do dia nas passeatas, onde falsificam a realidade, mostrando através de um verdadeiro truque de prestidigitação a manifestação como o oposto do que era, ou seja, não contra a direita e os seus ataques ao povo, mas contra a corrupção do PT. As falsas manifestações de massa, manipuladas pelos meios capitalistas de comunicação são uma manifestação clara da tendência golpista.

 

A maior parte dos analistas acredita que há uma contradição absoluta não dialética entre a luta eleitoral e o golpe de Estado, como uma muralha intransponível. Na realidade, a relação entre ambos é de alimentação mútua, quanto mais se exacerba a luta, mais a disputa eleitoral alimenta o golpe de Estado e este radicaliza a disputa eleitoral.

 

Quem estava nas ruas afinal e por quê?

 

O maior mito já criado acerca das manifestações é sobre o perfil dos manifestantes. Sociólogos amadores já tiraram a conclusão de que são nacionalistas, afinal portavam bandeiras do Brasil; são de direita, uma vez que a Rede Globo, instrumento sociológico fundamental no Brasil, mostrou cartazes contra o PT e até defendendo propostas muito à direita; que são contra partidos, afinal os partidos de esquerda foram vaiados e atacados por manifestantes. Sabe-se que as pessoas assustadas veem fantasmas atrás de cada porta. É natural que a esquerda, que foi completamente tomada de surpresa pelas manifestações visse todos esses fantasmas. O problema, porém, é que eles não são reais e sequer é correto fazer a análise a partir da observação de determinados fatos que ocorrem dentro de uma multidão confusa e heterogênea ou, para efeito de método, qualquer manifestação.

 

É preciso fazer uma análise objetiva do desenvolvimento das manifestações, o que, para a maioria, parece não ter importância alguma ou certamente menor do que o testemunho de um cartaz escrito em papel de cartolina. A maior de todas as manifestações foi a de segunda-feira. O que provocou o afluxo da multidão às ruas? Obviamente, e inconfundivelmente, a repressão da quinta-feira passada. O clima de mobilização cresceu com o repúdio à violência da PM contra o movimento dos jovens. O que isso tem a ver com todo o conservadorismo que as testemunhas reputam tão importante? As pessoas viram na repressão, um motivo para protestar contra os partidos, contra a PEC 37, contra a liberação do aborto e a favor da ditadura militar e pelo esmagamento do comunismo. Claro que basta formular o problema para ver que ele não faz sentido algum.

 

Todo o segredo do ilusionismo está na engrenagem política da manifestação e não na mística análise da “opinião do povo” dos sociólogos sem carteirinha ou com carteirinha.

 

O primeiro fato fundamental é que a direção do movimento era muito fraca organizativamente para tamanho crescimento da mobilização, na qual a maioria esmagadora dos participantes era de esquerda e apoiava em algum grau a luta contra o Alckmin e pelo transporte. Essa debilidade foi ainda terrivelmente agravada pelas manias e preconceitos inculcados naquele movimento há tempos, de que ele deveria ser “horizontal”, ou seja, sem carros de som nem organização formal e de que deveria ser apartidário. Essa posição que corresponde a um anarquismo de classe média, e que é a “ideologia” dos integrantes do MPL, permitiu que a direita, mais organizada e mais dissimulada do que qualquer esquerdista, se impusesse de maneira agressiva à manifestação, ainda que relativamente. No meio da confusão e da dispersão enorme, da ausência de uma organização central, foi extremamente fácil para um grupo reduzido de direitas atacar individualmente militantes ou grupos de militantes da esquerda dentro da manifestação, acobertados pela palavra de ordem absurda de “abaixo os partidos”. A direita organizada infiltrou-se ruidosamente no meio da manifestação com as suas próprias palavras de ordem, altamente impopulares, como a defesa da volta dos militares ao poder. No entanto, a dispersão, a confusão, o clima de extrema desorganização, não permitiram reação alguma, ainda mais de pessoas não acostumadas a nenhuma manifestação ou luta política em geral. Por sua vez, as redes de TV selecionavam a seu critério como mostrar a manifestação e a diluíram ainda mais em um espírito de completa abstração com frases tais como a de “como isso é lindo”, “o povo está na rua”,  “paz”, “somos todos brasileiros”. Obviedades e coisas sem nenhum conteúdo real ou mesmo sem sentido (se somos todos brasileiros, por que saímos à rua, o país está sendo ameaçado ou será que ganhou a Copa do Mundo com antecedência?).

 

A mistura dentro da manifestação era heterogênea, comportando todo tipo de gente, mas sobretudo uma parcela expressiva de classe média, em grande parte de esquerda, mas cheia de preconceitos pacifistas e morais, em bem menor parte conservadora. Embora os participantes originais da manifestação estivessem lá em grande número estavam completamente desorganizados e dispersos. As palavras de ordem reacionárias, como a de “fora todos os partidos” eram minoritárias e em alguns momentos eram confundidas pelos mais desavisados com um protesto de esquerda.

 

O que facilitou o relativo crescimento dessa confusão e uma pequena liberdade para a direita foi a completa falta de compreensão da esquerda, boa parte da qual está educada para acreditar que a burguesia é pacífica e democrática e que o nazi-fascismo só existe em filmes e que o Brasil está acima dessas coisas estranhas. A esquerda, majoritária em todas as passeatas, deixou o caminho livre para uma minoria de direita impor-se no meio da confusão. Para aqueles que nunca viram nem estudaram o mecanismo do golpe de Estado essa foi uma experiência em primeira mão ainda que em miniatura. Os golpes de Estado sempre são o golpe de uma minoria organizada e montada no poder do Estado e do dinheiro contra uma maioria desorganizada e confusa. A política da esquerda pequeno-burguesa é sempre um fator de desorganização das lutas das massas. Esses são os fatores fundamentais.

 

O estrangulamento da mobilização em S. Paulo

 

A manifestação convocada para a Praça da Sé na terça-feira foi a mais confusa e a mais dominada pela direita de todas e o número de manifestantes diminuiu consideravelmente em relação à segunda-feira. Outro erro dos que estavam encarregados da convocação foi chamar o ato para o dia seguinte. Na realidade, não fizeram nenhuma análise do que estava acontecendo no quadro político geral, preocupados apenas com a negociação com os governos municipais e estaduais. De um dia para o outro, a situação ficou ainda mais difícil para a esquerda e mais fácil para a direita.

 

A esquerda acuada pelo que havia acontecido na segunda-feira simplesmente não compareceu à manifestação, o que facilitou ainda mais a ação da direita contra nosso partido e os poucos  que decidiram levantar uma bandeira. A direita, mais à vontade, partiu para a agressão contra militantes ou pequenos grupos isolados dominando completamente a manifestação.

 

Alckmin e Haddad cederam na quinta-feira à reivindicação, mostrando que já não tinham condição de sustentar a sua resistência à manifestação, mas também que temiam o acirramento da luta no interior da mobilização e o seu crescimento nacional. A vitória do movimento é inconteste e fica realçada pelo fato de que a imprensa mais direitista, como a revista Veja, saiu no final de semana a denunciar que a vitória não havia sido “completa”, uma tática para roubar às massas o entusiasmo por essa vitória sobre um governo repressor como é o governo do PSDB. A burguesia se preocupa com que as massas não consigam medir efetivamente a sua força, o que certamente impulsionará novas manifestações e de maior ambição.

 

Diante da vitória, a esquerda, inclusive o PT, decidiu comparecer em maior número à marcha da vitória, inclusive os próprios militantes do PT, despertados pela demonstração de força da direita dentro da manifestação. A discussão sobre as agressões e a denúncia da ação da extrema-direita contribuíram para alinhar a todos contra  a direita. Já não havia a mesma confusão e ilusão de dois dias antes.

 

 A concentração da esquerda no MASP agrupou mais de 500 pessoas convocadas especialmente para se impor contra a direita.

 

A participação da esquerda era muito maior que o restante da manifestação inteira, o que pode ser observado porque a passeata se dividiu pelas duas mão da Av. Paulista. Esse fato desmascarou dois dos mitos. Em primeiro lugar, que a maioria das manifestações era conservadora, antipartido etc. Em segundo lugar, que a orientação que foi imposta à manifestação pela imprensa capitalista teria sido um eixo da manifestação e não o seu estrangulamento. A quinta-feira mostrou que a burguesia já havia estrangulado efetivamente o impulso dos que reagiram à repressão do dia 13 de junho.

 

A posição favorável da esquerda também foi perdida por motivos puramente políticos. Várias organizações da esquerda atenderam ao chamado de levantar bandeiras na manifestação da vitória, mas atenderam ao chamado com os seus próprios conceitos políticos, ou seja, de que não se tratava de organizar uma ofensiva contra a direita, de enfrentar fisicamente a repressão que havia se transferido para dentro do movimento e sim que a própria presença majoritária da esquerda já realizaria toda a tarefa. A esquerda não foi ao ato para combater o fascismo em broto, ou seja, uma violência e um golpe contra a manifestação, e sim para fazer uma parada eleitoral e aterrorizar os policiais à paisana, os skinheads e os integralistas com a imponência de uma propaganda puramente eleitoral. O resultado dessa comédia foi o de que, quando cerca de 50 elementos da direita partiram para dentro da manifestação com gás de pimenta, bombas de efeito moral, cassetetes e uma ou outra faca, a esquerda se dispersou rapidamente e não apenas não enfrentou a violência como procurou evitar que outros, como os militantes do PCO, que já esperavam por essa ação, reagissem a ela. Um militante do PCO foi contido por um segurança do PSTU para que não reagisse à provação direitista. Essa política parlamentar, de crença na conciliação permanente, no pacifismo e na superioridade moral da democracia conduziu a passeata, que seria uma vitória segura da esquerda, a um empate.

 

O movimento nacional

 

O movimento nacional foi detonado pelas mobilizações de S. Paulo e pela repressão policial, particularmente depois do dia 13 de junho.

 

O movimento todo tinha muita semelhança com o de S. Paulo, a começar pela ampla presença da juventude. Em Minas Gerais, era totalmente dirigido contra o governo do PSDB, que reprimiu com brutalidade as manifestações. No Rio de Janeiro incorporou uma parcela ainda maior da população proletária e, embora a presença da direita também se manifestasse no meio da confusão e desorientação geral, essa presença estava mais diluída. Também, em todos os estados, atendendo ao apelo carnavalesco da imprensa capitalista, as bandeiras brasileiras apareciam em número considerável, sublinhando ainda mais a falta de orientação da manifestação toda.

 

Em muitos lugares, o movimento assumiu claramente também a bandeira de luta pela revogação das tarifas e em várias cidades foi vitorioso ainda antes do de S. Paulo. Em geral, o objetivo das manifestações era o de protestar diante das sedes dos governos municipais e estaduais, evidenciando a falácia divulgada pela imprensa de que o movimento seria contra o governo nacional do PT. Em vários lugares, Belo Horizonte em particular, o movimento dirigiu-se aos jogos da Copa, além das sedes dos governos. Para a máquina de desinformação da imprensa, isso seria uma demonstração de um repúdio à Copa do Mundo no Brasil por parte da população, uma rematada sandice, propagada intencionalmente em uma campanha orquestrada contra a Copa do Mundo pela direita para impedir que o governo use na sua demagogia eleitoral a Copa do Mundo como elemento decisivo na eleição de 2014 que será realizada imediatamente após a competição. Na realidade, os manifestantes buscam utilizar o fato de que a Copa atrai a atenção popular para protestar e mostrar as suas reivindicações. Outro dado importante é que o governo do PSDB proibiu qualquer tipo de manifestação em 800 cidades do Estado, o que cria automaticamente um movimento contra a repressão policial-estatal.

 

A tendência que se verifica neste momento é a de que, na maioria dos lugares, o movimento comece a refluir no plano imediato, em função do seu término em S. Paulo, o que se dará em ritmos desiguais em cada lugar e dependendo sobretudo da repressão policial, principalmente em BH e Rio de Janeiro.

 

A revolução dos eleitores: “contra todos os partidos”

 

A improvisação e o desespero podem ser os piores conselheiros. Para desarmar a bomba prestes a explodir após o dia 13 de junho, a direita, apoiada pelas redes de TV direitistas, lançou duas palavras de ordem completamente sem sentido. De um lado, cartazes muito cuidadosamente improvisados diziam “contra todos os partidos”, e alguns grupos gritavam “o povo unido não precisa de partido”.

 

São palavras de ordem completamente sem sentido, porque até mesmo os regimes ditatoriais mais bonapartistas acabam tendo uma organização partidária e um programa que lhes deem alguma coerência. O funcionamento da sociedade política sem partidos é logicamente uma fantasia delirante própria dos anarquistas e dos fascistas, manifestações políticas da pequena-burguesia encurralada pelo capitalismo e do individualismo tipicamente pequeno-burguês. A experiência histórica, porém, nos mostra que o fascismo no poder substitui os fascistas “sinceros” pelas mais burocráticas máquinas partidárias e estatais de que se tem notícia, apoiadas na monstruosa burocracia das forças armadas. Já os anarquistas acabam a reboque dos partidos democráticos (I Guerra Mundial, Revolução Espanhola de 1936) ou se diluindo nos partidos revolucionários (Revolução Russa de 1917), mas nunca conseguem ter um verdadeiro papel independente que consiste na criação de uma terceira via entre a revolução e a contrarrevolução, entre a burguesia e o proletariado. No caso específico do Brasil, sequer se poderia pensar em tal coisa, que significaria impedir forças sociais poderosas como os capitalistas e a classe operária de se organizar politicamente para fazer valer os seus interesses. Somente uma ditadura muito brutal, baseada, no entanto, em um regime de partido único, cujas frações seriam partidos dentro do partido, poderia conseguir realizar esse feito e, mesmo assim, de forma falaciosa.

 

Fato significativo é que cerca de 85% da população votaram na última eleição e naturalmente votaram em algum partido, porque o regime político brasileiro, antidemocrático, não permite candidaturas sem partido. Se tais palavras de ordem fossem realmente a política que domina o povo, como apresentaram, teríamos praticamente uma revolução dos eleitores contra si mesmos.

 

Não temos dúvida de que, na próxima eleição, a esmagadora maioria dos que estiveram na manifestação irá votar em candidatos de algum partido.

 

Há sempre, entretanto, alguma razão mesmo na pior loucura e em política, que é uma manifestação essencialmente prática do mundo real e material, as fantasias não podem ser colocadas em prática e se tornam, por este motivo, quando se tenta colocá-las em prática, em uma outra coisa, independentemente da vontade de quem a formulou, compatível com o mundo real. Nesse sentido, a fantasia e loucura políticas têm que ser interpretadas para descobrir a qual realidade essas fantasias correspondem no mundo real.

 

No mundo real, as coisas se passam da seguinte maneira. Os partidos burgueses tradicionais, várias vezes reciclados, como se fossem papel velho, estão completamente esgotados e são rejeitados, não pela manifestação e sim pelo eleitorado. Os partidos de direita são os mais abalados.  Um dos aspectos centrais de qualquer processo revolucionário em desenvolvimento é o fato das massas ultrapassarem os partidos tradicionais da burguesia, em primeiro lugar os mais conservadores, mas também os liberais, democráticos e reformistas. No Brasil, esse processo está muito desenvolvido porque os partidos fundamentais da burguesia, em primeiro lugar o PMDB, se esgotaram durante o governo Sarney quando tiveram que enfrentar a classe operária em ascenso de 1983 a 1989.

 

O único partido que ainda mantém autoridade sobre as massas é justamente o PT.

 

A luta contra todos os partidos, contra o partidarismo em geral, é a luta dos partidos que foram completamente rejeitados pelas massas contra os partidos que não foram. Se a burguesia não consegue dizer, “largue o PT, venha para o PSDB”, então ela diz, “largue todos os partidos, todos são maus”. É um velho truque da política burguesa que leva ao bonapartismo, ao golpe de Estado e ao fascismo.

 

Toda a campanha da direita nas manifestações, incluindo a proposta do senador Cristovam Buarque de dissolução de todos os partidos, apontam imediatamente para que a eleição de 2014 seja feita em torno de indivíduos e não de partidos, ou seja, para o reforço do tradicional sistema político brasileiro que se caracteriza pela incapacidade da burguesia de construir partidos nacionais sólidos. A formação do partido Rede da Sustentabilidade – que já busca disfarçar-se eliminando o partido do nome – é parte dessa manobra para atrair o voto da classe média despolitizada e confusa, para dividir o voto contra a direita e permitir a vitória da direita.

 

Abaixar as bandeiras ou lutar por um partido operário

 

A esquerda pequeno-burguesa, cuja grande arte política é ver tudo do ponto de vista eleitoral e parlamentar apesar da sua escassa capacidade eleitoral, já lançou a sua tradicional política de mimetização diante da ofensiva da direita. Se “as manifestações” rejeitam os partidos, vamos abaixar as bandeiras. Se “o povo” não quer partido, vamos ser partidos que sejam o menos possível partido. Essa camaleônica falta de personalidade da esquerda pequeno-burguesa é uma característica inerente a esse tipo de esquerda. Nisso são uma caricatura da política burguesa que procura manipular o eleitorado em função dos seus interesses de classe, mas não sacrificar os seus interesses para se adaptar ao eleitorado.

 

Esse instinto para a mimetização, porém, impede a esquerda pequeno-burguesa de ver o lado dinâmico da situação de crise que levou a direita a um ataque frontal a todos os partidos e entregou o jogo, mostrando ao mesmo tempo que o ataque a todos os partidos é fundamentalmente um ataque aos partidos “vermelhos”. De um lado, a burguesia colocou na mesa o debate do partido e mostrou, para os mais esclarecidos, que a luta contra a organização partidária é uma luta central para ela. Em segundo lugar, levou a questão do antipartidarismo da pura retórica demagógica para a prática mostrando que a conclusão lógica do antipartidarismo é a ditadura e o golpe, esclarecendo assim ainda mais a questão. Em terceiro lugar mostrou que sem organização política, uma organização que não é apenas e nem essencialmente eleitoral, não é possível enfrentar o que a burguesia está cozinhando no seu caldeirão de bruxa: a ação fascista violenta contra todas as organizações operárias e democráticas.

 

A conclusão inevitável desses fatos é que se torna necessário construir um partido, na medida em que o PT não cumpre efetivamente esse papel e é, claramente, o principal responsável, com a sua política de conciliação de classes, pela ofensiva da direita e pelo enfraquecimento das organizações operárias e democráticas.

 

A proposta de frente de esquerda para defender o movimento de luta contra as agressões fascistas foi recebida por uma ampla camada de militantes com entusiasmo e expressa a tendência geral a construir um partido operário, mas, fundamentalmente, um partido operário de ação e não eleitoral, vale dizer, um verdadeiro partido operário, um partido revolucionário. As necessidades da luta vão servir para esclarecer de maneira cabal esse problema e dar lugar a um partido operário que reúna todo o ativismo da juventude e da classe operária.

 

A questão do partido está colocada integralmente na ordem do dia.

 

“Vandalismo”: o nome da burguesia para a luta revolucionária das massas

 

Se houve um tema que se manteve constante em todas as etapas da manifestação e que foi unânime, da esquerda pequeno-burguesa à extrema direita, passando pelo governo do PT, foi o do “vandalismo”, ou melhor, da condenação do “vandalismo”.

 

O tema em si é muito pouco complexo e foi esclarecido até mesmo através do humor. Algumas mensagens da internet mostravam um quadro da Revolução Francesa, no dia histórico da derrubada da Bastilha e dizia, “derrubar a Bastilha não! É vandalismo, bora fazer uma petição online!”. Uma outra mostrava nos levantes do Leste Europeu, a cabeça de uma estátua de Stálin, enquanto um manifestante dizia para o outro: “a estátua do Stálin é patrimônio público”. É uma crítica perfeita ao cinismo, à hipocrisia da burguesia, da polícia e dos governos e à atitude beata da esquerda pequeno-burguesa que fala em revolução, mas chora quando vê uma janela estilhaçada.

 

Já Marx havia ensinado coisa muito diferente quando assinala, durante a Revolução Alemã de 1848, que os revolucionários não deveriam conter as massas quando estas se pusessem a destruir símbolos do regime etc., mas estimulá-las.

 

Um argumento particularmente cretino – uma palavra que Marx usava saborosamente contra a esquerda pequeno-burguesa da sua época – é o de que o suposto vandalismo é obra de pequenas minorias, dando a entender que seria apoiado e legítimo se fosse de uma maioria. Nesse caso, não seria melhor propor a expansão do vandalismo ao invés de condená-lo?

 

Deixando de lado os argumentos de tipo parlamentar, o problema é simplesmente que o temor da burguesia ao “vandalismo” é um disfarce do pavor de que as massas passem da manifestação “pacífica”, ou seja, inócua, à ação violenta e revolucionária.

 

A ação violenta, como somente poderia ser, partiu da juventude, em particular de um setor proletário da juventude, mais decidido e radical. É a expressão da evolução da luta geral para métodos mais eficazes superando a política puramente parlamentar da esquerda pequeno-burguesa.

 

Em grande medida, o movimento foi vitorioso graças aos “vândalos” que reagiram como puderam à repressão policial. O medo dos governos estava em que essas ações se generalizassem com a ocupação de edifícios públicos e um agravamento da crise política. Basta conferir quantas vezes os órgãos da imprensa do grande capital e da direita usaram as expressões “paz”, “manifestação pacífica”, a qual foi considerada logicamente “linda”.

 

O mesmo cenário havia se repetido na USP, onde o governo do Estado queria usar de máxima violência policial contra os estudantes e colocar a universidade em estado de sítio, mas a reação estudantil somente poderia ser absolutamente pacífica, ou seja, os estudantes teriam que baixar a cabeça diante da repressão, o que não é apenas contrarrevolucionário, mas indigno. Foi apenas a atitude dos “vândalos” que colocou em xeque a ditadura do PSDB. A esquerda pequeno-burguesa do PSTU e do Psol também aí condenou o “vandalismo” de uma minoria que, segundo eles, não teria sido aprovada pela maioria, que supostamente seriam eles.

 

Embora seja um truísmo, para usar um anglicismo tão de acordo com a nossa época, é preciso dizer: não há revolução sem violência. E mesmo que os revolucionários fossem mais exageradamente pacíficos do que são, a burguesia nunca lhes permitiria o luxo de uma revolução pacífica e os faria dançar conforme a música ou perecer. Somente preconceitos arraigados podem levar alguém a pensar de forma diferente depois de tantas manifestações da própria burguesia. Dessa forma, não faz sentido ignorar a presença da violência na sociedade e sim compreendê-la e preparar-se conscientemente para ela.

 

Nesse sentido, se a ação dos “vândalos” é desorganizada, deve ser organizada.

 

Se a ação dos “vândalos” é sem objetividade, deve ser fornecido um objetivo claro a ela.

 

Se a ação dos “vândalos” é minoritária é preciso torná-la geral.

 

E não combatê-la.

 

A frente popular balança; cairá? Queremos que caia?

 

Embora as manifestações não sejam fundamentalmente dirigidas contra o governo federal como quer a máquina de desinformação que é a imprensa capitalista, não há dúvida de que todo o regime político burguês foi sacudido e também a frente popular no governo. É importante assinalar o fato de que o principal aliado do PT, o governo do Rio de Janeiro, foi tão duramente atingido quanto os governos do PSDB de S. Paulo e Minas Gerais.

 

Não se pode descartar que as manobras golpistas da direita conduzam à derrota do PT nas eleições, por meio de um golpe institucional ou por uma medida de força, principalmente porque a política do próprio PT colabora ativamente com as manobras da direita. Isso, no entanto, não deve ofuscar a questão central que é da crise da direita e a sua cada vez maior incapacidade não apenas para governar em geral, mas para impor a política de ataque às massas. A vitória do passe livre em S. Paulo é a maior demonstração da fraqueza da direita para impor essa política.

 

Diante desse quadro, qual deve ser a política da classe operária? Parte da esquerda chegou à conclusão, desmentida de maneira contundente pelos recentes acontecimentos de que não havia mais direita no país, de que o PT havia agrupado toda a burguesia detrás de si, que os partidos de oposição eram um tigre de papel etc. Alguns foram inclusive ao extremo de dizer que, se houvesse algum golpe no Brasil, ele partiria do PT. Vimos a mesma posição em relação a todos os governos nacionalistas latino-americanos e, no caso recente da Venezuela, o PSTU nos esclareceu que não havia golpe e nem mesmo “dinâmica golpista”. No Brasil, alguns grupos como o Psol não conseguiram ainda chegar a uma conclusão a respeito e assinalam claramente a necessidade de manter uma frente com os elementos que, em S. Paulo, atacaram os “comunistas” dentro das marchas e pregavam o golpe militar. Segundo eles, é o “povo” naturalmente confuso e que é preciso esclarecer. Não há dúvida de que o esclarecimento seja sempre necessário, mas não atua em favor da clareza fechar pura e simplesmente os olhos à ameaça da direita e, mais ainda, participar da campanha “contra a corrupção” que somente pode ter como beneficiário o grande capital e a direita que se opõe ao PT.

 

Um dos argumentos mais extraordinários apresentados por esta esquerda pequeno-burguesa é o de que “não podemos deixar a luta contra o PT para a direita e, em particular, não podemos deixar a bandeira de luta contra a corrupção para a direita”. Todos estes argumentos apenas provam que estamos diante de uma esquerda que não aprendeu o abc da luta política de classe e revolucionária. Não compreenderam que a luta de classes não é uma cruzada moral, mas que o programa e as bandeiras de agitação que se depreendem dela servem justamente para agrupar militantes e as massas em um sentido determinado. A bandeira da pseudo-luta contra a corrupção serve apenas para organizar a clientela política dos corruptos de direita contra a esquerda corrupta ou não. Usado no interior do movimento operário e da juventude não passa de um elemento de confusão. Esse princípio elementar da luta política foi provado nas manifestações. Se a esquerda pequeno-burguesa moral continuar acompanhando a agitação política da direita não estará disputando com ela a propriedade da luta contra o PT, mas sendo absorvida pela direita. Isso ficou demonstrado na posição da esquerda diante do julgamento do mensalão, onde sacrificaram a luta democrática para levar adiante a miragem da luta contra a corrupção. O julgamento do mensalão buscava enfraquecer o PT, criar uma plataforma eleitoral para a direita, criar novas lideranças direitistas (Joaquim Barbosa) e tudo o que foi obtido foi isso. Para o movimento operário e para a esquerda ficaram o reforço da repressão dos julgamentos arbitrários. O mesmo se dá agora com a luta contra a PEC 37, que diminui o poder do Ministério Público, supostamente, para reprimir a corrupção. Ao fazer eco dessa outra campanha da direita, a esquerda pequeno-burguesa reforça o poder repressivo de um organismo não eleito pelo povo para cometer ainda mais arbitrariedades. Nesse caso, a campanha nada mais é que um fortalecimento da repressão geral do Estado contra o povo.

 

A luta contra a corrupção não é uma luta do movimento operário, que não defende ideais abstratas que não podem ser colocadas em prática na realidade, mas os seus próprios interesses materiais. A denúncia da corrupção, que deve ser feita contra o regime burguês de conjunto e não apenas contra a esquerda do regime, esquecendo a direita, é um meio para mostrar a necessidade de intensificar a luta pelos seus próprios interesses e não para exaltar o espírito moral da classe operária. E, finalmente, como tudo o que não é real, a luta contra a corrupção é pura demagogia eleitoral e é isso o que mais seduz a esquerda pequeno-burguesa que não resiste à tentação de tomar carona na campanha eleitoral da direita contra a poderosa máquina eleitoral do PT.

 

Outro mito que deve ser completamente desfeito é o de que a luta da classe operária é contra o governo. Já a formulação é essencialmente eleitoral e encobre o problema de classe. A classe operária luta contra a burguesia, contra o regime político burguês em seu conjunto e contra os governos burgueses. O antigovernismo pequeno-burguês serve apenas para se alinhar ao partido de oposição burguesa mais forte do momento. A classe operária e seu partido devem lutar, ao mesmo tempo, contra a direita e a esquerda da burguesia, mas não deve confundir os dois. Chávez não é igual a Capriles e Lula não é igual a Serra, Alckmin e FHC. Nós combatemos os movimentos nacionalistas e frente-populistas sempre pela sua incapacidade de combater a direita, pelas suas alianças com a direita, por colocar em prática a política da direita quando esta não é capaz, cobrando deles as posições esquerdistas, em grande parte demagógicas, com as quais pretendem atrelar as massas. Dizer que Lula é igual ou pior que Serra serve apenas para desmoralizar quem diz isso e a própria ideia de independência política em relação ao PT e à frente popular. Se a esquerda revolucionária não combater os ataques da direita contra as pequenas realizações da esquerda burguesa, como irá convencer militantes e o movimento dos trabalhadores que fará grandes reformas através da revolução?

 

A crítica à esquerda burguesa também não é, como assinalamos acima, uma cruzada, mas um instrumento para ajudar as massas a superar as limitações da esquerda burguesa e para organizar um movimento independente.

 

Nossa luta não é imediatamente pela derrubada do governo PT, embora não sejamos responsáveis pela sua continuidade ou não, mas para organizar os trabalhadores e juventude em uma poderosa força independente da esquerda burguesa e da frente popular, capaz de derrotar a direita e de colocar em pauta a luta pelo poder.

 

E agora?

 

O desenvolvimento das manifestações defronta-se com o problema crucial da falta de organização e da falta de uma orientação política e até mesmo reivindicativa clara.

 

Em outras oportunidades, tais movimentos que eram mais coerentes e concentrados, mas não tão amplos, serviram fundamentalmente como um estopim de uma nova etapa de lutas e de desenvolvimento revolucionário da classe operária. Em 1977, meses de intensa agitação estudantil que começaram em S. Paulo e se tornaram nacionais, deram lugar ao início do ascenso operário que liquidou de fato com a ditadura tendo como centro as greves do ABC. Em 1983, após três anos de recessão, para tomar os exemplos que correspondem à atual etapa política, uma manifestação do movimento dos desempregados que invadiu a sede do governo estadual nos primeiros dias do governo do PMDB de Franco Montoro deu lugar a uma semana de quebra-quebras em S. Paulo, para ceder lugar em seguida ao crescimento do movimento grevista, que realizou duas importantes greves gerais e depois à campanha das diretas e, enfim, ao amplo movimento grevista revolucionário de 1985-89. A campanha do Fora Collor, também começada pela juventude estudantil, a partir da campanha política da burguesia na imprensa capitalista, levou à queda de Collor, à manobra da posse de Itamar e a toda a crise que foi fechada com o Plano Real e a eleição de FHC dois anos depois.

 

A crise interna da burguesia é certamente, como fato histórico, o maior estímulo para a explosão inicial das mobilizações populares. Nesse caso, a intensa luta entre os defensores do PT e a direita, uma clivagem no interior do bloco burguês, tem acirrado a disposição dos setores pequeno-burgueses, em primeiro lugar a juventude estudantil, tanto de esquerda, amplamente majoritário, como de direita.

 

Um prognóstico seguro consiste em que, embora a atual onda de mobilização reflua, em função das suas limitações atuais, esse refluxo é um intervalo necessário para a mudança de forma do movimento, necessária para que possa se expandir e consolidar. Seguindo os exemplos anteriores, por analogia, podemos concluir que o movimento reaparecerá na forma de movimentos parciais de setores mais organizados, com reivindicações definidas, como foi o movimento do passe livre, incorporando a insatisfação manifestada amplamente em um movimento objetivo e organizado ou, pelo menos, mais organizado.

 

Para isso, torna-se necessário discutir um programa concreto que ataque os problemas reais das massas e que combata a pseudo-luta contra a corrupção. Contra o crescimento da inflação, luta por aumentos salariais, salário mínimo vital, escala móvel. Contra as demissões, advindas da recessão, redução da jornada, salário desemprego, escala móvel etc. Contra a carestia em geral, reestatização de todos os serviços públicos, controle das empresas. Reforma agrária, luta contra a repressão e em defesa dos direitos democráticos, liberdade sindical, direito de greve etc. Liquidação dos mecanismos antidemocráticos do regime político, fim do senado, câmara única, congresso proporcional, liberdade de organização partidária, eleição do judiciário etc.

 

Este conjunto de reivindicações deve apontar sistematicamente para o fim do monopólio político da burguesia na forma de luta por um governo dos operários, camponeses e do povo, de um governo dos trabalhadores, sem a participação da burguesia, seus partidos e seus dirigentes.

 

Em todo este movimento é preciso sublinhar incansavelmente a crise terminal capitalista e o fato de que a manutenção da propriedade privada é o principal obstáculo à resolução dos problemas do país.

 

Sobre esta base, deverá surgir através das etapas da luta um partido operário amplo, que agrupe os principais sindicatos e militantes operários e da juventude, os movimentos de mulheres, agrários, de negros etc. Para isso, é preciso lutar por uma imprensa independente e denunciar a imprensa capitalista reacionária e golpista. Esse é o sentido geral da luta revolucionária na etapa atual.

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